Rio -  Um tiro na cabeça transformou em tragédia o encanto da noite de Natal de Adrielly dos Santos Vieira, de 10 anos. Com a boneca que ganhou nos braços, a menina atravessava a rua para mostrar o presente aos pais quando caiu no chão, próximo à comunidade Urubuzinho, em Pilares. Levada para o Hospital Salgado Filho, no Méier, por um tio, pouco depois da meia-noite, a criança se deparou com mais um absurdo drama: a falta de um neurocirurgião no plantão para tentar salvar a sua vida.

Com a bala alojada na cabeça, Adrielly ainda teve que esperar oito horas pela chegada de outro médico para fazer a cirurgia. Agora, ela está internada em estado grave, em coma induzido e em observação por 48 horas.

Segundo a mãe, Adriana dos Santos, 33 anos, a família demorou a saber que a menina tinha sido atingida por uma bala. “Eu achei que ela tinha tropeçado e feito um corte na cabeça. Só fomos informados do tiro às 3h, depois de ter sido feito um raio-x”, contou. Desesperada, ela explicou que o outro neurocirurgião só chegou por volta das 8h30 de ontem.
Foto: Paulo Araujo / Agência O Dia
Mãe da menina, na porta do hospital | Foto: Paulo Araujo / Agência O Dia
Indignada, a família tentou invadir o hospital. O pai, Marco Antônio Vieira, 36 anos, foi contido por seguranças e passou mal. “Ninguém informa como ela está. Minha esposa está tremendo. Trabalhamos muito e descontam impostos do nosso salário para termos um atendimento desse. É uma vergonha”, revoltou-se o pai.

À tarde, ele informou que os médicos conseguiram retirar a bala da cabeça, mas disseram que era cedo para saber se a menina ficará com sequelas. Ainda não há previsão para Adrielly deixar o hospital. “Consegui ver minha filha. Estou mais tranquilo. Peço a Deus para ela sobreviver. Tudo o que eu quero é que ela se recupere bem”, disse.

Chefe do plantão não comunicou ausência do médico

A assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil informou que o neurocirurgião Adão Orlando Crespo Gonçalves, que deveria chegar à unidade às 20h do dia 24, faltou ao trabalho. Um inquérito administrativo já foi instaurado para investigar.

O secretário, Hans Dohmann, afirmou que tanto o médico quanto o chefe do plantão, Enio Eduardo Lima Lopes, que demorou a comunicar à direção a ausência do profissional, mesmo com mais de quatro horas de atraso, e não requisitou a transferência da menina, podem ser punidos. Ao RJ TV, da TV Globo, o neurocirurgião teria afirmado que havia pedido demissão do cargo, fato que a secretaria nega. Os médicos não foram encontrados para comentar.

Polícia apura a origem do disparo

Na 28ª DP (Campinho), investigadores aguardam os familiares da criança para prestar depoimento. O objetivo inicial é descobrir a origem do disparo.
A comunidade do Urubuzinho ainda não é pacificada. Mas, segundo Adriana, a Rua Amália, onde a família mora e onde a menina foi atingida, é tranquila.

“A gente nunca ia imaginar que isso pudesse acontecer na porta de casa. A rua é tranquila. Esse tipo de coisa nunca aconteceu por lá. Atirar no Natal é uma pouca-vergonha, um absurdo”, Cristiane Vieira, 40 anos, tia da menina.