Milton Cunha: Sempre pode piorar
Rio - A onda ruim é uma velha conhecida minha, acontece raramente, mas quando inicia a minha intimidade com ela permite reconhecê-la e dar-lhe um “alô”. Digo para mim mesmo: mantenha a calma, não faça cara de vítima porque você não é a última das criaturas e lembre-se sempre, querido, ainda pode piorar! Não sei se é merecimento ou acaso, mas o destino conspira para a cadeia de erros, sucessão de desacertos, sequência de confusão naquele dia que você não deveria ter saído da cama. Será só coincidência?O avião da Aerolineas Argentinas que me trazia de San Luis pousou atrasadíssimo em Buenos Aires. Corri, passei pela imigração e, quando cheguei no portão, o embarquetinha encerrado. Tentei sair da área restrita e fui barrado, porque meu passaporte já tinha sido carimbado como tendo partido. Estranha situação, eu não estava lá, estando. Não tendo partido, eu também não tinha ficado. Eu teria que morar ali no free-shop e na sala de embarque. Chamaram os funcionários que poderiam me ajudar e me levaram para aquelas saletas de deportados. Me deram uns papéis para eu assinar declarando que eu tinha desistido de tomar o avião. Forneceram uma cópia da declaração e me mandaram procurar o guichê da companhia aérea para os procedimentos de reembarque, que só seria na manhã do dia seguinte. Suspirei: calma, pode piorar!A empresa me deu o voucher do hotel, em Montserrat, e mandou eu pegar um táxi com meu dinheiro, ida e volta, que depois me reembolsariam. Imaginei um pobre coitado sem dinheiro, em fim de férias, o que faria? Peguei o táxi e, quando estávamos perto do Obelisco, avistei multidão de azul e amarelo, que pensei ser um desfile da Unidos da Tijuca às 23h. Não era.Eram torcedores do Boca Juniors comemorando os 50 anos do clube numa festança monumental que fechou o entorno da área. Pronto, piorou: eu estava preso num engarrafamento que transformou em duas horas o trajeto que seria de 15 minutos. Quando cheguei morto de cansado ao hotel, o motorista alertou que eu não deveria sair às ruas de noite porque a vizinhança era barra pesada. Caí na gargalhada.O hotel era bom, mas o banheiro era um perigo: o vidro do chuveiro estava bambo, e eu já me vi cortado ao meio por aquela lâmina, entre sangue e escorregões. Como meu mantra era de que podia piorar, mantive-me longe da possibilidade de ter dois pedaços me mim no chão daquele tango de Gardel. Não dava para dormir porque tinha que sair às 4h da manhã para pegar o avião de 6h30.
Milton Cunha é carnavalesco e Doutor em Ciência da Literatura pela UFRJ
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