Milton Cunha: Réquiem para Alcione Barreto
Vivo aprendendo com o povo negro. Esta foi mais uma, cantar para o morto, que deve entrar sambando no céu
Dona Zica, Dona Neuma, Jamelão, Elmo José dos Santos, minha amiga divina Célia Domingues da Amebrás e... meu Deus, o Doutor Alcione Barreto, jovem e cabeludo, bem apessoado, em pé, sem a cadeira de rodas em que me acostumei a vê-lo nos últimos anos. Fotografei a fotografia para mandar imprimir em papel, planejando dar uma cópia para Elmo e Célia, e outra para Alcione, quando eu iria sacaneá-lo dizendo: “Foste um pedaço, hein, meu Dinossauro preferido!”.
Quando cheguei à capela, o hall, as escadas, a portaria estavam cheios de sambistas. E eu não esperava menos. Me esgueirando, cheguei ao caixão, calor enorme, dois discursos mais intelectualizados se fizeram pronunciar, e foi aí que Elmo avançou ao bumbo, colocou-o no talabarte que pendia de seu ombro, e pensei: “Eita, vai começar!”. Como diz a tradição africana, herdada pelo povo do samba, a morte pede cantoria e uma leve gira, que no terreiro seria o axexê.
Pois Elmo, Alvinho e Xuxu puxaram o belíssimo samba Quando um poeta de Mangueira morre... e meus olhos encheram-se de lágrimas e meu coração de orgulho por pertencer àquela gente, àquela tribo. Estava na hora certa no lugar onde queria estar. Que glória cantar belezas a um amigo morto, cuja vida foi digna e benevolente.
Vivo aprendendo com o povo negro e o povo de samba. Esta foi mais uma, cantar para o morto, que deve entrar sambando no céu. Como disse Elmo, mais um anjo da guarda ao lado de papai do céu, para cuidar do samba. Adorei ter te conhecido, Alcione querido!
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