Hora de consumir em paz
Moradores de favelas movimentam R$ 38,6 bilhões em todo o país
Atentos a esse movimento, cada vez mais, empresas miram no novo consumidor, a chamada nova classe. E levam seus produtos e lojas diretamente às comunidades.
Valéria Alves festeja os novos tempos e o fato de não precisar ir longe para consumir | Foto: Carlo Wrede / Agência O Dia
No Rio, a expansão fica mais evidente a partir da pacificação das favelas. Exemplos são a loja da Casa & Vídeo no Complexo do Alemão e a das Casas Bahia na Rocinha.
Também bancos se instalaram nas localidades, oferecendo serviços e crédito, a moradores e comerciantes. Hoje, estão nas favelas cursos de idiomas, salões de beleza e clínicas de estéticas, entre outros prestadores de serviços.
“Há cinco ou oito anos, esse contingente era invisível. São frentistas, taxistas, secretárias e outros que não tinham voz porque não eram consumidores. Assim, não chamavam a atenção das empresas”, diz o ministro Moreira Franco, da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), do governo federal.
Pacificação impulsiona economia em comunidades
Diretor de Sustentabilidade da Associação Brasileira de Franchising (ABF-Rio), Romualdo Ayres afirma que a pacificação das favelas foi fundamental para essa nova realidade. “Foi uma quebra de paradigma. A pacificação e as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) são uma mudança que não é do comércio, não é da economia, mas é para todo o país”, comemora Ayres.
Segundo o empresário, a possibilidade de negócios é muito grande nessas comunidades, desde que os moradores estejam envolvidos. A ABF-Rio acaba de assinar um convênio com a Associação Comercial do Complexo do Alemão para qualificar e preparar novos empreendedores locais para que desenvolvam projetos de sustentabilidade na região.
Ele aponta os setores de serviços, educação e alimentação como os mais prósperos nessas localidades. Segundo Ayres, o Complexo do Alemão, em especial, vive um grande momento, já que as pessoas se sentem mais seguras. Recentemente, num feriadão, o teleférico do Alemão recebeu mais visitas do que o Pão de Açúcar.
Custo menor atrai mais empresas
Economista da Federação de Comércio do Rio de Janeiro (Fecomércio-RJ), Christian Travassos destaca que a ordenação do espaço urbano e o investimento em infraestrutura são fundamentais para a consolidação do processo de pacificação nas comunidades do Rio. Segundo Travassos, o interesse das grande redes varejistas em se aproximar desse público tem a ver com a redução dos custos para instalar filias nessas regiões.
Ele alega que, de modo geral, o comércio já é onerado com encargos que podem chegar a 40%. “Além disso, há toda a sorte de gastos, com segurança ou equipamentos, por exemplo. Isso pode tornar um negócio inviável em determinado local”, alerta.
Christian Travassos destaca a importância de as entidades trabalharem em conjunto com o poder público, discutindo formas de atuação em cada região. Segundo ele, é necessário preservar o pequeno negócio local com potencial de desenvolvimento.
Ele afirma que, de cada R$ 4 que ingressam na economia do país, R$ 3 vêm do comércio, da prestação de serviços e do turismo. “Hoje, 3/4 do PIB vêm desses setores”, garante.
Renato Meirelles: Nova classe média cresce e é a bola da vez
Sócio-diretor do instituto de pesquisa Data Popular, Renato Meirelles é considerado um dos grandes especialistas em mercados emergentes. Em parceria com a Secretaria de Ações Estratégicas da Presidência da República, desenvolve pesquisas para identificar e propôr ações direcionadas às classes D e E. Com a nova dinâmica do mercado consumidor brasileiro, Meirelles dá atenção especial à nova classe média, que cresce a cada dia.
O DIA: Com a pacificação das favelas do Rio, é para essas regiões que as grandes redes devem olhar?
MEIRELLES: Os moradores das favelas do Rio de Janeiro movimentam R$ 13 bilhões por ano. Isso leva ao surgimento de um mercado gigantesco de consumo que, muitas vezes, quer comprar produtos que antes só havia no asfalto. Então, é uma oportunidade gigantesca.
Esse consumidor tem características próprias que o diferenciam do consumidor do asfalto?
Em pesquisa realizada com jovens da classe C, em favelas do Rio, o que se percebe é que essa geração vê a marca como aval de qualidade. A marca é algo muito importante pra eles. E, com a chegada deste novo mercado, eles preferem comprar dentro de sua própria comunidade.
Como consomem mais, são eles que decidem o que comprar dentro de casa?
Hoje, jovens são formadores de opinião da nova classe média. Em especial os de comunidades. São eles que pesquisam para os pais o que comprar na internet e, geralmente, decidem o que comprar. Na maioria das vezes, descobrem a melhor opção de crédito e ajudam os pais a pesquisar taxas e juros.
Esse consumidor tem características próprias que o diferenciam do consumidor do asfalto?
Em pesquisa realizada com jovens da classe C, em favelas do Rio, o que se percebe é que essa geração vê a marca como aval de qualidade. A marca é algo muito importante pra eles. E, com a chegada deste novo mercado, eles preferem comprar dentro de sua própria comunidade.
Como consomem mais, são eles que decidem o que comprar dentro de casa?
Hoje, jovens são formadores de opinião da nova classe média. Em especial os de comunidades. São eles que pesquisam para os pais o que comprar na internet e, geralmente, decidem o que comprar. Na maioria das vezes, descobrem a melhor opção de crédito e ajudam os pais a pesquisar taxas e juros.
O Data Popular realiza trabalhos com a Secretaria de Ações Estratégicas da Presidência da República. Da parceria, o que pode virar política pública?
Para a Secretaria, o grande desafio a médio e longo prazo é garantir que a nova classe média não regrida para as classes D e E. A preocupação é desenvolver um crescimento sustentável. Essa nova classe está preocupada com a meritocracia, ou seja, é uma classe que não quer nada de graça. A educação é outro ponto importante, visto que cada ano de estudo impacta em 15% a mais no salário dessas pessoas.
Para a Secretaria, o grande desafio a médio e longo prazo é garantir que a nova classe média não regrida para as classes D e E. A preocupação é desenvolver um crescimento sustentável. Essa nova classe está preocupada com a meritocracia, ou seja, é uma classe que não quer nada de graça. A educação é outro ponto importante, visto que cada ano de estudo impacta em 15% a mais no salário dessas pessoas.
Tem muitas empresas grandes visando e tentando absorver todo esse potecial público consumidor que ingressa na nova classe média?
Quais setores podem crescer nessas áreas?
Formalizar os serviços é uma grande oportunidade. É possível abrir uma empresa de pintura ou ser um pequeno empreiteiro, por exemplo. Outro campo promissor é o mercado da beleza. Nesse sentido, a classe C pode se tornar fortemente empreendedora.
Reportagem de Aurélio Gimenez e Bruno Dutra
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