Rio -  Um mercado de 1,4 milhão de pessoas que gastam R$ 13 bilhões por ano é o perfil das favelas do Rio. Na comparação com o resto do país, os números se destacam, pois, segundo o Censo de 2010 do IBGE, há 11,5 milhões vivendo em favelas. Eles vão fechar o ano com despesas de R$ 38,6 bilhões.
Atentos a esse movimento, cada vez mais, empresas miram no novo consumidor, a chamada nova classe. E levam seus produtos e lojas diretamente às comunidades.
Valéria Alves festeja os novos tempos e o fato de não precisar ir longe para consumir | Foto: Carlo Wrede / Agência O Dia
Valéria Alves festeja os novos tempos e o fato de não precisar ir longe para consumir | Foto: Carlo Wrede / Agência O Dia
No Rio, a expansão fica mais evidente a partir da pacificação das favelas. Exemplos são a loja da Casa & Vídeo no Complexo do Alemão e a das Casas Bahia na Rocinha.
Também bancos se instalaram nas localidades, oferecendo serviços e crédito, a moradores e comerciantes. Hoje, estão nas favelas cursos de idiomas, salões de beleza e clínicas de estéticas, entre outros prestadores de serviços.
“Há cinco ou oito anos, esse contingente era invisível. São frentistas, taxistas, secretárias e outros que não tinham voz porque não eram consumidores. Assim, não chamavam a atenção das empresas”, diz o ministro Moreira Franco, da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), do governo federal.
Com facilidades perto de casa, a vendedora Valéria Alves aproveita para fazer ascompras de Natal na Rocinha onde mora há 15 anos. “Agora, a Rocinha é igual as outros lugares. Aqui, podemos comprar de tudo e não precisamos ir ao asfalto para ter acesso às lojas”, afirma ela.
Pacificação impulsiona economia em comunidades
Diretor de Sustentabilidade da Associação Brasileira de Franchising (ABF-Rio), Romualdo Ayres afirma que a pacificação das favelas foi fundamental para essa nova realidade. “Foi uma quebra de paradigma. A pacificação e as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) são uma mudança que não é do comércio, não é da economia, mas é para todo o país”, comemora Ayres.
Segundo o empresário, a possibilidade de negócios é muito grande nessas comunidades, desde que os moradores estejam envolvidos. A ABF-Rio acaba de assinar um convênio com a Associação Comercial do Complexo do Alemão para qualificar e preparar novos empreendedores locais para que desenvolvam projetos de sustentabilidade na região.
Ele aponta os setores de serviços, educação e alimentação como os mais prósperos nessas localidades. Segundo Ayres, o Complexo do Alemão, em especial, vive um grande momento, já que as pessoas se sentem mais seguras. Recentemente, num feriadão, o teleférico do Alemão recebeu mais visitas do que o Pão de Açúcar.
Custo menor atrai mais empresas
Economista da Federação de Comércio do Rio de Janeiro (Fecomércio-RJ), Christian Travassos destaca que a ordenação do espaço urbano e o investimento em infraestrutura são fundamentais para a consolidação do processo de pacificação nas comunidades do Rio. Segundo Travassos, o interesse das grande redes varejistas em se aproximar desse público tem a ver com a redução dos custos para instalar filias nessas regiões.
Ele alega que, de modo geral, o comércio já é onerado com encargos que podem chegar a 40%. “Além disso, há toda a sorte de gastos, com segurança ou equipamentos, por exemplo. Isso pode tornar um negócio inviável em determinado local”, alerta.
Christian Travassos destaca a importância de as entidades trabalharem em conjunto com o poder público, discutindo formas de atuação em cada região. Segundo ele, é necessário preservar o pequeno negócio local com potencial de desenvolvimento.
Ele afirma que, de cada R$ 4 que ingressam na economia do país, R$ 3 vêm do comércio, da prestação de serviços e do turismo. “Hoje, 3/4 do PIB vêm desses setores”, garante.
Renato Meirelles: Nova classe média cresce e é a bola da vez
Sócio-diretor do instituto de pesquisa Data Popular, Renato Meirelles é considerado um dos grandes especialistas em mercados emergentes. Em parceria com a Secretaria de Ações Estratégicas da Presidência da República, desenvolve pesquisas para identificar e propôr ações direcionadas às classes D e E. Com a nova dinâmica do mercado consumidor brasileiro, Meirelles dá atenção especial à nova classe média, que cresce a cada dia.
O DIA: Com a pacificação das favelas do Rio, é para essas regiões que as grandes redes devem olhar?

MEIRELLES: Os moradores das favelas do Rio de Janeiro movimentam R$ 13 bilhões por ano. Isso leva ao surgimento de um mercado gigantesco de consumo que, muitas vezes, quer comprar produtos que antes só havia no asfalto. Então, é uma oportunidade gigantesca.

Esse consumidor tem características próprias que o diferenciam do consumidor do asfalto?

Em pesquisa realizada com jovens da classe C, em favelas do Rio, o que se percebe é que essa geração vê a marca como aval de qualidade. A marca é algo muito importante pra eles. E, com a chegada deste novo mercado, eles preferem comprar dentro de sua própria comunidade.

Como consomem mais, são eles que decidem o que comprar dentro de casa?

Hoje, jovens são formadores de opinião da nova classe média. Em especial os de comunidades. São eles que pesquisam para os pais o que comprar na internet e, geralmente, decidem o que comprar. Na maioria das vezes, descobrem a melhor opção de crédito e ajudam os pais a pesquisar taxas e juros.
O Data Popular realiza trabalhos com a Secretaria de Ações Estratégicas da Presidência da República. Da parceria, o que pode virar política pública?

Para a Secretaria, o grande desafio a médio e longo prazo é garantir que a nova classe média não regrida para as classes D e E. A preocupação é desenvolver um crescimento sustentável. Essa nova classe está preocupada com a meritocracia, ou seja, é uma classe que não quer nada de graça. A educação é outro ponto importante, visto que cada ano de estudo impacta em 15% a mais no salário dessas pessoas.
Tem muitas empresas grandes visando e tentando absorver todo esse potecial público consumidor que ingressa na nova classe média?
Existe um contingente enorme de pessoas que está ávido para conhecer marcas eexperimentar novos serviços. Com isso, cresce a importância das franquias, que possibilitam a capilaridade das empresas numa velocidade que acompanhe a ascensão da nova classe média.

Quais setores podem crescer nessas áreas?

Formalizar os serviços é uma grande oportunidade. É possível abrir uma empresa de pintura ou ser um pequeno empreiteiro, por exemplo. Outro campo promissor é o mercado da beleza. Nesse sentido, a classe C pode se tornar fortemente empreendedora.
Reportagem de Aurélio Gimenez e Bruno Dutra