Rio -  O cineasta Sílvio Tendler escreveu ‘Carta Aberta ao Delegado de Polícia’ que o intimou para prestar declarações em inquérito instaurado para apurar suposto constrangimento ilegal, por ocasião das manifestações contra a comemoração do golpe militar de 1964. Na carta, informou que estava recém-operado e, infelizmente, impedido de participar do ato público contra a reunião de sediciosos que comemoravam o aniversário da ditadura que torturou, matou, roubou e desapareceu com opositores do regime.

A carta relembra o assassinato do capitão Carlos Lamarca e seu companheiro Zequinha — doentes, esquálidos e sem forças —, fuzilados quando a lei e a honra determinavam levá-los para um hospital. “Essa gente estava lá, não eu; eles é que devem ser investigados”, diz.

E sugere ao delegado: “Procure apurar se o canalha que prendeu, torturou e humilhou minha mãe nas dependências do DOI-Codi participou do ‘festim diabólico’. E aproveite para pedir que devolva o relógio da minha mãe. Processe-o por roubo qualificado, pois foi à mão bem armada.” Afirma que o que eles fizeram durante a ditadura é mais assunto de polícia do que de política.

Sugere também que se pergunte ao presidente do clube militar se ele tem alguma pista do paradeiro do deputado Rubens Paiva, desaparecido em sede militar, e indaga se o crime contra ele praticado o foi por algum participante da festa realizada no clube.

Por fim, informa sua participação: “Tudo o que fiz foi um convite às pessoas a se manifestarem contra as comemorações do golpe de 64”. Termina a Carta manifestando solidariedade aos que protestaram e foram tratados de forma truculenta pela polícia do Estado, à base de gás de efeito moral, spray de pimenta e choque elétrico.

A Carta do cineasta Silvio Tendler toca nas feridas abertas do processo político brasileiro provocadas pela ruptura da ordem institucional quando militares entreguistas, a serviço do capital nacional e multinacional, tomaram o poder, perseguiram os nacionalistas e violaram toda ordem de direitos.
João Batista Damasceno é doutor em Ciência Política pela UFF e juiz de Direito. Membro da Associação Juízes para a Democracia