Rio -  Uma das pequenas revoluções que as UPPs estão criando vem da Educação. Em meio ao debate sobre o futuro das comunidades pacificadas, que O DIA e ‘Meia Hora’  promovem, a secretária de Educação do Município do Rio, Cláudia Costin, apresenta as suas armas: melhoria de 42,9% no desempenho dos alunos de escolas em áreas pacificadas e queda de 30% de evasão nas unidades que fazem parte do projeto ‘Escolas do Amanhã’.
“É evidente o efeito da pacificação”, comenta a secretária, entusiasta do projeto que dá aos alunos estudo em tempo integral, aulas de ciências com experimentos nas salas, atendimento médico e prática de esportes, entre outras.
Foto: Alexandre Brum / Agência O Dia
Costin: 'O efeito das UPPs é fantástico' | Foto: Alexandre Brum / Agência O Dia
O DIA: Qual a importância das UPPs dentro do projeto "Escola do Amanhã", que vem apresentando um desempenho bem acima das convencionais?

Cláudia Costin: É fantástico. As "Escolas do Amanhã" pegam tanto áreas não pacificadas quanto as recém-pacificadas, pois leva um tempo até a pacificação ter um efeito significativo nestas escolas. Há que ter uma transição, especialmente com jovens que faziam pequenos serviços para tráfico, como as grávidas. O tráfico deixa um rastro de meninas grávidas que muitas vezes abandonam as escolas! Trazer de volta estas meninas é extremamente importante. É preciso ter um olhar muito generoso com a pacificação, com o projeto, pois isto traz impacto na redução dos índices de desempenho escolar.

Os números do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica são ótimos para as escolas do projeto, principalmente das em áreas já pacificadas...

Do sexto ao nono ano, na idade em que o tráfico recruta os jovens, o Rio melhorou 22%. Já nas do ‘Escola do Amanhã’, o crescimento foi de 33%, comparando 2009 com 2011. Para você ter uma ideia, o cenário nacional no pais foi de 0,5%.

Mas nas áreas já pacificadas o índice foi melhor...

Sim. Nas pacificadas, nas 10 escolas onde houve pacificação, o crescimento foi de 42,9%. Já nas ainda não pacificadas, o número foi menor, de 28,1%. Repara que mesmo nas não pacificadas a melhora foi superior à melhora da cidade. Agora, é evidente o efeito da pacificação, é fantástico. Soltamos foguetes e até liguei para o governador. A pacificação de fato tem um efeito incrível nas escolas, não só pelos números, mas pelo relato dos diretores de escola. A diretoria do Ciep Antoine Mandarinos, no Borel, por exemplo, diz que a situação da escola mudou da água para o vinho. Caiu a evasão, a escola está mais tranquila, a frequência aumentou... no Alemão, na Cidade de Deus, as condições também melhoram muito.

Como funcionam as unidades do "Escola do Amanhã"?

Ela é uma escola que está dentro do mesmo padrão de exigência, tem o mesmo currículo, as mesmas provas bimestrais unificadas, o mesmo programa que as convencionais. A diferença de abordagem é que o programa de ciências, por exemplo, é muito mais forte, com experimentação. Pusemos laboratórios de ciências em cada sala de aula, onde aprendem ciências experimentando, por exemplo. Não é um programa simples, é muito mais forte do que na média da rede. É o mesmo que a Escola Parque utiliza. É financiado pelo ‘Cientistas do Amanhã’. Temos também a pós-escola, atividades fortes em artes e esporte, além de reforço escolar, para que a criança fique mais tempo na escola. Há asmães educadoras, da comunidade, que são contratadas para serem uma presença pacificadora no recreio das crianças, fazendo visitação familiar para crianças em risco de evasão escolar. Há ainda uma metodologia de ensino mais dinâmica, voltada a desfazer bloqueios cognitivos que advêm de exposição à violência.

E a evasão, também melhorou o resultado desde que o projeto foi criado?

Sim. Dentro destas especificidades, temos as mães educadoras, que vão às casas das crianças sob risco de evasão. Temos visitação domiciliar com esta finalidade. Pelas nossas pesquisas, onde é pacificado, a evasão diminuiu 30%! A evasão geral das unidades de ‘Escola do Amanhã’ também caiu. Em dezembro de 2008, antes do projeto, ela estava em 5,2%Ao final de 2011, ela caíra para 3,18%. A da cidade, que na época era 2,6%, caiu para 2, 3%, o que é um baixo índice de evasão.

Diante de números tão bons, por que todas as escolas do Rio não ganham a mesma metodologia?

No mundo ideal, estas escolas vão diminuir, pois são voltadas às áreas conflagradas. Não há planos de aumentar, só se a dinâmica da violência crescer, vamos aumentar. São 152 escolas entre 1.074 em todo o município. Desde que começou o programa, em 2009, só uma escola deixou de ser ‘Escola do Amanhã’, que é a do Dona Marta (Botafogo). Já a Cidade de Deus precisa de mais um ano com esta especificidade, na nossa avaliação. A do Alemão é muito recente.

E como você se sente diante destes avanços?

Alegria por tudo o que foi feito, pois Educação leva tempo e estamos avançando. Mas enquanto o Brasil for 53º lugar em leitura e 57º em matemática no Pisa (teste internacional de Educação), não posso me considerar realizada.