Rio -  A maior necessidade de Xerém, distrito de Duque de Caxias, ainda é a água. A Secretaria Estadual de Saúde constatou que, dos 12 abrigos da região, sete estão com água imprópria para o uso. A análise foi feita pelo Laboratório Central Noel Nutels. De acordo com a Cedae, a distribuição só atenderia a 100% da região a partir da noite de domingo.
O centro de doações no bairro da Mantiqueira, em Xerém | Foto: Alessandro Costa / Agência O Dia
O centro de doações no bairro da Mantiqueira, em Xerém | Foto: Alessandro Costa / Agência O Dia
“O fornecimento de água limpa para Xerém só será feito na terça (amanhã) ou quarta-feira”, afirmou o prefeito de Caxias, Alexandre Cardoso. Ele também pediu que seja intensificada a doação, e recomendou que as áreas que estão recebendo água só a utilizassem a partir de ontem, pois ela ainda estaria suja pelo assoreamento dos canais.
Em visita a Xerém, o secretário estadual de Saúde, Sérgio Côrtes, disse que equipes do órgão, junto à Secretaria Municipal de Saúde e ao Ministério da Saúde, estariam monitorando a água dos abrigos e a tratando com cloro. “Estamos distribuindo cerca de 10 mil frascos de hipoclorito de sódio nos abrigos, para que as pessoas possam tratar a água de suas casas”, disse Côrtes.
Nos lugares contaminados, recomenda-se o uso de água mineral de garrafa até para a limpeza de louça e cozimento de alimentos.

DENGUE E LEPTOSPIROSE
Tendo em vista o risco de proliferação do mosquito da dengue com as chuvas, o Governo do Estado criou um Centro de Hidratação de Dengue, que começou a funcionar ontem às 15 horas, no Posto de Saúde de Xerém. A unidade conta com 12 cadeiras para hidratação e tem capacidade de atender 300 pessoas por dia. Quatro clínicos gerais, quatro pediatras, quatro enfermeiros e oito técnicos de enfermagem integram a equipe. Além disso, o Estado entregará mais um kit calamidade a Caxias, além de 3 mil comprimidos de antibiótico para tratar possíveis casos de leptospirose.
Na manhã de domingo, a vendedora Sueli de Oliveira, de 57 anos, foi buscar água mineral e cesta básica para os sobrinhos, que perderam a casa na localidade de Café Torrado, umas das mais atingidas em Xerém. De acordo com ela, quando começou a enchente, sua família saiu da casa apenas com a roupa do corpo. O prefeito de Caxias afirmou que a ponte que caiu com as chuvas em Café Torrado ficará pronta nesta segunda.
Sepultada vítima da chuva
O corpo do funcionário da Cedae, Enéas Paes Leme, de 55 anos, vítima da chuva em Xerém, foi enterrado ontem no Cemitério do distrito. Devido ao estado do corpo do trabalhador, que morreu afogado e ficou desaparecido durante três dias, foi necessário um caixão com o dobro do tamanho dele. Oito homens ajudaram a descer a urna à cova.
O corpo de Enéas foi encontrado na Reserva Biológica do Tinguá, onde trabalhava. Amigos contaram que ele deixou o reservatório porque teria ficado com medo ao ouvir o barulho da água e ao ver as árvores indo em direção ao local. O lugar, no entanto, ficou intacto. “Graças a Deus achei meu pai. Estamos dando a ele um enterro digno”, disse o filho Rodolfo.
REMOÇÃO É ÚNICA SAÍDA, DIZEM TÉCNICOS
Remoção. A palavra, maldita aos ouvidos de quem vive de votos, se transformou em realocação para ser apontada como única solução que evite, a médio prazo, a repetição de tragédias como a de Xerém. A opinião é de Paulo Cesar Rosmando, coordenador do Departamento de Engenharia Ambiental da Coppe/UFRJ (Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia). Em 2007, a entidade entregou à Secretaria Estadual de Meio
Ambiente estudo apontando as soluções para acabar com os problemas na Baixada Fluminense e no litoral.
“Qualquer aluno de Geografia, do Ensino Médio, sabe que os rios transbordam”, diz Rosman. “Existem áreas que são de alagamento natural. É preciso retirar as pessoas destas regiões e levá-las para outras áreas com infraestrutura. Realocar estas pessoas. Mas isso nenhum político vai fazer. Custa voto”, emenda ele.
O que ocorreu em Xerém, diz Rosman, não o surpreende, e muito menos às autoridades, incluindo todo o corpo técnico do Instituto Estadual do Ambiente (Inea). Ele garante que todos estão cientes da inviabilidade da ocupação desordenada, tanto na Baixada quanto na Região Serrana. O grande vilão, diz Rosman, são os municípios.
“Não é o tipo de obra que agrade a políticos, pois você tem de mover bairros inteiros de uma cidade para outra, e as pessoas não gostam disso. É muito mais fácil para o prefeito atingir suas metas lucrativas em benefícios eleitorais. Os políticos só atuam no que dá voto”.
Reportagem de André Balocco e Constança Rezende