Rio -  A Praça São Salvador, incrustada entre os bairros do Flamengo, de Laranjeiras e o Largo do Machado, é a mais interiorana — e paradoxalmente, também a mais cosmopolita — da Zona Sul do Rio de Janeiro.
Quase tudo nesse logradouro gira em torno de um lindo e tradicional coreto central e do chafariz imperial. Ambiente singelo, mas com uma rotação que alcança decibéis de grau máximo! A pulsação ali é permanente, com direito a sirenes do Corpo de Bombeiros localizado na boca da praça e à doçura das flautas dos chorões que fazem a festa aos domingos, alimentada pelas caipiroskas de frutas do Luisinho.
Como boa praça do interior, dezenas de crianças brincam de bola e skate no parquinho e fora dele; vizinhas jogam conversa fora, carrocinhas de pipoca, pizzas e outros quitutes complementam o cenário dos vendedores de cervejas. Os bares do entorno sempre lotados de saudáveis e históricos bebuns. Casais de jovens namorados — do mesmo e de sexos diferentes — se pegam como bem podem enquanto o chafariz refresca a rapaziada. A música rola à vontade para dar combustão ao ambiente: blues, chorinhos e sambas. No meio de toda essa muvuca, desconfie do carro de vidros fumê estacionado com um casal no banco de trás fazendo curvas corporais que nem Niemeyer imaginaria.
Na mais democrática roda de samba que acontece aos sábados, a partir das 19h, onde todo mundo toca e muita gente se desentoca, criou-se uma tradição muito próxima da dos pubs londrinos: hora de terminar é pra findar messssmo! Desliga-se o som. O acordo com os moradores permite acordes até as 22h. Nem um minuto a mais. E os sambistas não querem confusão. A roda é superbem organizada dentro da maior diversidade. Os ritmistas trazem seus instrumentos — agogôs, chocalhos, tamborins e cuícas — e banquinhos onde se sentam. Quando bate 21h30m, Jonatas Albuquerque, um dos coordenadores, sai pela praça com chapéu de palha na mão recolhendo o “trocadinho” que irá ajudar nas despesas com a mesa de som.
“Hoje tivemos aqui quase 60 mil pessoas”, anuncia, cariocamente, o animador do pagode. Oficialmente, estima-se uma média de 600 a 800 pessoas a cada sábado. Assim é o “Batuque no Coreto, Pelo Samba Para Ser Feliz”, com pessoas de todas as idades. Sábado passado, a banda Me Engana Qu’eu Gozo optou por atacar marchinhas do passado. A galera pulou de suar, antecipando o carnaval que já começou na Praça São Salvador.
Luis Turiba é poeta e cuiqueiro