Rio -  ‘É preciso amar as pessoas/Como se não houvesse amanhã’. Os versos de ‘Pais e filhos’, cantados e aplaudidos pelos manifestantes vestidos de branco, volta e meia interrompiam o silêncio da marcha que, na noite de segunda-feira, ocupou o Centro de Santa Maria. Ao recordar o trecho da música da Legião Urbana, aqueles cerca de 35 mil jovens admitiam não haver qualquer certeza em relação ao futuro. Na madrugada de domingo, o amanhã deixara de existir para centenas de seus colegas, mortos no incêndio da boate Kiss. “Nós pensávamos que estávamos seguros, agora você é nosso anjo, David”, dizia faixa levada por estudantes de Odontologia.
Cerca de 35 mil pessoas fizeram uma passeata pelas ruas do Centro da cidade | Foto: Yuri Weber / A Razão / Agência O Dia
Cerca de 35 mil pessoas fizeram uma passeata pelas ruas do Centro de Santa Maria | Foto: Yuri Weber / A Razão / Agência O Dia
“A gente achava que algo assim jamais aconteceria com a gente”, comentou, nesta terça, Vagner Horz, 22 anos, aluno de Ciências Contábeis. Conhecia cinco dos mortos; três eram de sua cidade, Palmeiras das Missões. Jeferson Schulz, 18, estudante deEconomia, é outro que não esconde o choque de realidade que sofreu diante da tragédia. “O tempo todo pensei que poderiam ser meus pais aquelas pessoas que iam reconhecer seus filhos. Imaginei que a minha foto é que poderia estar sendo colocada no Facebook por amigos em busca de notícias sobre mim, o colega desaparecido”, completou.
Vagner e Jeferson vivem no mesmo apartamento num dos edifícios da Casa do Estudante Universitário, braço da Universidade Federal de Santa Maria responsável pela acolhida de 1.200 alunos. Cerca de 60% dos 27 mil estudantes da UFSM são de outras cidades, o que reforça a proximidade entre eles, muitos obrigados a deixar a casa dos pais. “A gente cria laços muito fortes”, ressalta Héctor dos Santos Facco, 19, que, no ano passado, saiu da casa paterna em Júlio de Castilhos para estudar Agronomia na UFSM. Segundo ele, 50 alunos do Centro de Ciências Rurais morreram no incêndio; dez deles eram de sua turma.
“Não sei como vai ser na segunda-feira, quando as aulas vão recomeçar. Tento não pensar nisso”. A camisa preta que usava na tarde quente de ontem não era gratuita: “Desde domingo estou de luto”.
DOR E COBRANÇAS
A retomada das atividades de uma instituição que perdeu 104 estudantes é outra preocupação. “É preciso haver apoio psicológico”, observou Leonardo da Silva Soares, integrante da direção do Diretório Central dos Estudantes. A reitoria se prepara também para dar suporte aos professores — há o caso de uma turma em que morreram 35 dos 50 alunos.
Foto: Yuri Weber / A Razão / Agência O Dia
Foto: Yuri Weber / A Razão / Agência O Dia
Nomes de muitos deles estavam em balões brancos pendurados no ponto de chegada da manifestação da véspera, o Centro Desportivo Municipal, conhecido como ‘Farrezão’. Lá, entre domingo e segunda-feira, houve o reconhecimento dos corpos e um velório coletivo.
Um quadro que reproduzia a ‘Pietá’ — a imagem de Jesus morto nos braços de Nossa Senhora — foi colocado no ginásio e serviu como centro de um altar improvisado onde eram depositados flores e cartazes com fotos das vítimas. Faixas pretas questionavam o descumprimento de normas técnicas de segurança e a ineficiência do poder público: “Alvará para quê? Fiscalizar para quê? Paga-se imposto para quê?”.
Jovens valorizam mais a vida e a preocupação dos pais
Não apenas estudantes participaram da manifestação. Um pequeno grupo, em uniforme militar, se destacava da multidão de branco. Era formado por soldados da Aeronáutica que seguravam uma bandeira brasileira. Diante do Farrezão, o fotógrafo Roni Riet explicava o motivo da caminhada. É um gesto de solidariedade, para trazer luz, paz, pedir energia para quem perdeu parentes”.
No dia seguinte, três alunas de Geografia contabilizavam perdas. Angélica Kaufmann foi a quatro velórios de jovens de sua cidade, Agudo. Zuleite Fruet conhecia quatro dos mortos; Angeli Bheling, sete. Zuleika admite que todos perderão um pouco de liberdade: “Nossos pais vão ficar mais atentos”.
Jeferson e Vagner escaparam da tragédia e dizem que há laço muito forte entre estudantes da cidade | Foto: Ernesto Carriço / Agência O Dia
Jeferson e Vagner escaparam da tragédia e dizem que há laço muito forte entre estudantes da cidade | Foto: Ernesto Carriço / Agência O Dia
As opiniões de Vagner e Jeferson, aqueles que dividem apartamento na CEU, são parecidas. “Pensei nas minhas queixas bobas por conta de provas na faculdade... Tem é que dar graças a Deus por estar vivo e com saúde”, disse o primeiro.
“Reclamo muito da proteção dos meus pais, mas agora admito que isso é bem compreensível”, completou Jeferson, ao fazer uma quase citação de outro trecho de ‘Pais e filhos’: “Você me diz que seus pais não te entendem/ Mas você não entende seus pais”.