Egito -  O espírito revolucionário se apossou novamente nesta terça-feira da Praça Tahrir, no Cairo, para exigir que o presidente egípcio, Mohammed Mursi, recue em suas últimas decisões e para reivindicar que os islamitas não dominem todos os ramos do poder.
Dezenas de milhares de pessoas cantaram em uma só voz que "a revolução continua" e que "o povo quer a queda do regime", em um novo passo em suas reivindicações contra o que consideram a "ditadura" de Mursi e da Irmandade Muçulmana, o grupo ao qual pertenceu o líder até que assumiu a presidência.
Manifestantes egípcios protestam contra decreto do presidente egípcio Mohamed Mursi, no distrito de Shubra, no Cairo | Foto: EFE
Manifestantes egípcios protestam contra decreto do presidente egípcio Mohamed Mursi, no distrito de Shubra, no Cairo | Foto: EFE
"Mursi é muito mais perigoso que (o ex-presidente Hosni) Mubarak. Só pensa na Irmandade Muçulmana, que quer controlar tudo", disse Ihab Youssef, funcionário de um banco. Para Youssef, o presidente quer "acumular todos os poderes" com o decreto constitucional ditado na quinta-feira passada, que blinda suas decisões perante a Justiça ao declará-las inapeláveis e definitivas até a entrada em vigor de uma nova Constituição.
Este sentimento era majoritário em Tahrir, em cujo centro infestado de barracas de campanha há quatro dias, chamava atenção um cartaz que pedia o "Egito para todos os egípcios". Os presentes em Tahrir criticaram não só o decreto constitucional, que foi a gota que transbordou o copo de sua paciência, mas também o domínio das forças islamitas na assembleia que redige a nova Carta Magna.
O manifestante Gamal Aburinad explicou junto a uma das tendas armadas na praça que é necessário mudar a Assembleia Constituinte, da qual se retiraram as forças liberais. "A Irmandade Muçulmana monopolizou o poder nesta comissão e em todas as instituições do Egito", denunciou Aburinad, que pretende seguir em Tahrir até que suas reivindicações sejam atendidas.
Entre as medidas adotadas por Mursi na quinta-feira passada, figura que a atual Assembleia Constituinte e a Câmara alta do Parlamento sejam indissolúveis. Apesar dos temores pelo predomínio dos islamitas, os presentes hoje em Tahrir, simpatizantes das forças liberais, se mostraram felizes ao ver que sua queda-de-braço contra Mursi e a confraria estava tendo sucesso.
"A praça está cheia sem a Irmandade Muçulmana", gritou um homem de um microfone, em alusão ao fato de que nos últimos tempos as maiores manifestações foram convocadaspelos islamitas. Tahrir voltou a ser o ponto para o qual confluem todos os caminhos, com passeatas provenientes de várias mesquitas do Cairo das quais participaram personalidades como o Prêmio Nobel da Paz, Mohamed ElBaradei, o ex-candidato presidencial, Hamdin Sabahi, e o conhecido escritor Alaa al Aswany.
A divisão da sociedade egípcia, palpável desde a chegada ao poder de Mursi, fez-se ainda mais evidente desde o decreto constitucional. Para apoiar estas decisões, a Irmandade Muçulmana havia convocado para hoje outra manifestação perto da Universidade do Cairo, que ontem decidiram cancelar para evitar distúrbios com os opositores ao presidente.
Embora tenham desistido de se manifestar no Cairo, os islamitas fizeram uma demonstração de força na cidade setentrional de Alexandria, um de seus redutos. O ambiente em Tahrir se manteve tranquilo, mas, perto dali, na Praça Simón Bolivar continuaram os enfrentamentos esporádicos entre manifestantes e forças de segurança.
Nestes choques, um jovem de 28 anos morreu ao sofrer complicações respiratórias após inalar gás lacrimogêneo lançado pela polícia. À margem da praça, mas com um olho na mesma, os membros do Conselho Superior de Justiça, críticos às decisões de Mursi, mantiveram hoje uma reunião de mais de sete horas da qual participou o novo procurador-geral, Talat Ibrahim, no cargo graças ao decreto presidencial.
A decisão de Mursi não só aqueceu a rua e uniu os liberais, mas reforçou a disputa entre o Poder Judiciário e o chefe de Estado, que não parece disposto a deixar os magistrados se interpor em seu caminho.


As informações são da EFE