Angela Bosco: #Pronto falei!
Rio - Ressaca do fígado, da vesícula preguiçosa ou ressaca moral, qual delas é a pior? Já encarei as três e para todas pedi morte instantânea (solta uma injeção no cangote). De natureza fraca para o álcool, faço tudo que mandam. Já caí no conto das colheres de azeite, do caldinho de feijão e do sarapatel. Maior mentira. Só ajudam a engrossar o caldo na hora de enfiar a cabeça no vaso.
Já usei calcinha vermelha, pendurei dente de alho no sutiã, lambuzei meu umbigo de pimenta. Bobagem. Simpatia não funciona contra ressacas. Só conheço um santo remédio se neguinho não quer ver o guarda roupa rodando a noite toda: a abstinência pura e simples. Fica proibido encostar o dedo numa gota de álcool. Aí funciona. Sou reincidente com 30 anos de pilequinhos mal-sucedidos. O negócio é beber suco de tangerina o carnaval inteiro. Quer variar? Chá de pêssego gelado.
Voilá: quarta de cinzas, noite mal dormida, Ana acorda com um gosto de cabo de guarda chuva na alma. Ressaca filha da mãe. Bebeu todas na véspera. Guarda ainda nos lábios o beijo do arrependimento: “Não devia ter dado meu número para aquele sujeito, droga”. Entre goles amargos de boldo, atende ao telefone. Joana, amiga de infância, carola e mal-resolvida, testemunha ocular de sua alegria, ligando para acabar com seu Carnaval. Amigos deveriam assinar um acordo entre cavalheiros. Nunca viram, nem ouviram nada. Não se lembram e não sabem de coisa alguma. Ana não precisava ser massacrada pela ressaca moral justo na hora que seu fígado já está sendo triturado. “O quê? Não, eu não subi na mesa! Eu levantei a saia? Não...”
Carnaval, a festa da carne sob os efeitos do álcool, da serpentina e do confete. Festa de corpos suados com purpurina e confetes. “Joana, eu deixei quem bolinar meu peito? Mentira sua... nem senti”. Para uma mulher bonita, entre a mesa de bar e o banheiro feminino existem outros perigos além de uma simples barata. Bilhetinhos, mãos bobas, cantadas, olhares, elogios, hormônios e cheiros. Que mulher resiste a um cafajeste depois da terceira caipirinha? Ana é humana. “Eu paguei cofrinho, Joana? Eu falei muito palavrão? Como podia saber que aquele filho da mãe era casado?” Tomei as dores da Ana.Odeio com todas as forças de minha alma quem se lembra de tudo o que aconteceu. Principalmente quando este TUDO é um bando de M#er&@* que uma mulher fez, faz e tem direito de fazer. Amigas são uma categoria de gente que não tem o direito de meter o bedelho no porre alheio. #pronto, falei.
Angela Bosco é artista plástica e lança este ano seu livro de contos
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