Rio -  Há muito tempo eu não gostava tanto de um show! Há muito tempo eu não ficava tão impactada por um espetáculo de música! Mas que prazer tive esta semana ao ouvir e ver e compartilhar o ‘Tôtatiando’ de Zélia Duncan! O que é aquele show? Um monólogo cantante? Um raro momento de poesia? O que é aquela mulher deslizando pelo palco, como uma fada moderna, dividindo com a gente a poesia do paulista Luiz Tatit?
O prazer da palavra cantada vai tocando o coração e a alma da gente, sem pieguice, numa sofisticação possível de compreensão a todos e todas. Será a democratização da poesia do homem moderno? Ou será a síntese do simples, do cotidiano que simplesmente se reflete na palavra poética? O que é aquele espetáculo, onde nada falta nem sobra, enxuto maduro, preciso, atual, simples e sofisticado como só é possível aos grandes sentimentos e, claro, às grandes canções e intérpretes? Em estado de graça, decidi que nada iria me tirar do sério! Nem a humilhante fila na porta do Into (Instituto deTraumatologia e Ortopedia) onde centenas de pessoas se espremem e se engalfinham na tentativa vã de curar a dor, operar o osso quebrado e recuperar o direito inalienável de ir e vir. Não quero perder o encantamento, nem tampouco posso admitir que ninguém tome providências, que as bengalas continuem balançando no ar, num protesto que ninguém escuta, vê ou se deixa comover. Até porque ninguém ali quer comoção. Todo mundo quer solução. Aliás, falando em direito de ir e vir também não posso ficar calada, fingindo que não sei que o Elevado do Joá está corroído e ameaçado.
E, neste caso, o tal do direito de ir e vir pode acabar num monte de entulhos e mortes enquanto uns e outros brincam de não aceitar os avisos dos melhores e mais bem formados técnicos em engenharia estrutural do país, os engenheiros da Coppe. Que lógica é esta que insiste em derrubar o elevado da Perimetral, que está firme e forte, sob o argumento absurdo de que ele é feio, e não usar o dinheiro para construir um novo Joá? Porque é que temos que conviver com o medo ao cruzar de São Conrado para a Barra, e vice-versa, torcendo para que a tragédia não aconteça enquanto a gente passa?
Porque é que as vans vão sair da nobre Zona Sul, mas ficarão em São Conrado, prejudicando ainda mais o trânsito cada vez mais insuportável, gritando nos microfones dia e noite seus trajetos? Que rancor é este pelo lado de cá da cidade que permite que a desordem urbana possa continuar aqui? Para tudo, guarda o Ego na gaveta e parte para o trabalho. Antes que a tragédia anunciada aconteça. Porque aí nem a beleza da poesia nem a alegria da música bem cantada poderá nos salvar.