Rio -  Tá lá o gringo, maravilhado fitando a Lagoa ou pegando um bronze nas areias do Leblon. Em certo momento, geralmente na terceira caipirinha, ele não aguenta e pergunta com os olhos de um injustiçado, condenado a pegar um avião em breve rumo ao inverno cinza de sua terra natal: “Como é morar no Rio?”. Imagino quantos cariocas já não passaram por situação semelhante. A minha resposta sempre foi: “Aqui é minha casa. A beleza salta mais aos seus olhos do que aos meus”.
Ontem, no trajeto da Barra ao Flamengo, indo via Botafogo e voltando via Copacabana, me toquei que passei por três lugares onde morei, duas faculdades onde estudei, dezenas de bares onde tomei milhares de chopes em incontáveis aniversários, happy-hours, madrugadas, encontros, desencontros. Pois é, foram 35 anos até agora vividos na mesma cidade. A minha relação afetiva com São Sebastião do Rio de Janeiro é tão intensa, tão incorporada ao que sou, que não posso dizer que na correria do dia a dia eu pare para admirar o Pão de Açúcar.Porém, existem outras belezas nessa cidade que não são tão facilmente identificáveis para principiantes ou recém-chegados, e a primeira delas é a leveza. Marcar um compromisso por aqui pode ser difícil, como todo mundo sabe. Ser de outro estado e formar um novo grupinho pode ser mais difícil ainda. Mas isso tudo pra mim tem uma simples explicação, se me permitem: há essa leveza no ar, pairando sobre esse lugar; existe um inconsciente coletivo empurrando incautos nativos no dia a dia a não levar a vida tão a sério. Como tudo na vida, isso tem seu lado bom e ruim. Mas uma coisa é certa, ser carioca é ter jogo de cintura.
A classe média alta aqui aprendeu a se jogar na escola de samba, a subir o morro. O playboy da Zona Sul vai ao Barra Music, ao Engenhão. Posso narrar mais uma de minhas lembranças afetivas, puramente cariocas. Cresci no Méier, mas fui estudar na PUC. Fiz amigos novos, amigos diferentes. Um deles ficou muito amigo dos meus amigos de infância, e isso se estende até hoje. Meu trajeto de ontem, inclusive, foi rumo a uma festa na casa dele, onde uma mistureba unia gente dos dois lados do túnel, de estruturas sócio-culturais totalmente distintas.
Há uns dez anos, esse cara levava uma horda de suburbanos felizes (eu incluído) ao Gávea Golf Club, onde a gente balançava as estruturas de alguns narizes em pé, farreando na piscina do aristocrático clube. Abri um sorriso lembrando. Pensa aí, onde mais isso poderia acontecer?
Daniel Lopes é cantor e compositor