Rio -  Alex Barbosa Pereira não faz cerimônia. Sai do carro, reclama de dor na coluna e avisa que dará a entrevista em pé. Está em casa: quadra do bloco Coroado de Jacarepaguá, Cidade de Deus. Ali, em 1992, cantou pela primeira vez em público, com o grupo Geração Futuro. Foi apresentado pelo locutor como o ‘filho da Dona Cristina’. Vinte e um anos depois, quem diria, MV Bill prepara lançamento de novo EP — ‘Vivo’, que fala de sua trajetória —, participa da comédia ‘Dia Dos Namorados’, de Roberto Santucci, na pele de um policial civil, e já escreve novo livro em parceria com o amigo Celso Athayde.
Cantor revela seus medos | Foto: João Laet / Agência O Dia
Cantor revela seus medos | Foto: João Laet / Agência O Dia
Mas é mesmo o rap que tem colocado sorriso no rosto dele. “Sempre sou chamado para falar sobre a área social, criminal ou alguma polêmica. Nos últimos meses, a música passou a ditar regras na minha carreira. Por isso, estou me sentindo vivo”, explica, usando o título da nova canção. O trabalho deverá ser lançado em março. Porém, o vídeo do primeiro single, ‘Soldado que Fica’, já está no YouTube, e conta com mais de 80 mil visualizações. Como aperitivo, outras canções serão liberadas aos poucos — a próxima será ‘Vivo’.
Mais do que contador de histórias, o filho de Dona Cristina é um sobrevivente. “Tive infância cercada de vulnerabilidade social. No início, eu era um playboy da favela. Poucos moleques tinham pai e mãe morando juntos. Eu tinha esse privilégio. Quando eles se separaram, vi meu palácio virar um barraco. Foi um momento complicado. Fiz mais besteiras, andei por estradas que não deveria ter trilhado nunca... Para puxar o freio de mão, o hip-hop, as coisas que a minha mãe me dizia e até as surras que levei foram importantes. Mas o fundamental foi o medo”, recorda.
“Naquela época, o rabecão demorava muito para passar. O cara que morria às 10h ficava até 22h exposto. Tínhamos 12 horas para refletir sobre aquela realidade. Tem uma frase do Nelson Mandela que sintetiza bem o que me salvou: ‘Medo não é ausência de coragem’. Vi que o medo faz parte da vida”.
Aos 39 anos, MV Bill convive com outros medos. Mas um deles, de tão ingênuo, o faz cair na gargalhada. Pasme: com 1,95 metro de altura, ele tem pavor de passarinho. “Outro dia, estava em Floripa comendo um açaí, e um passarinho parou do meu lado. Quase dei um rolamento. Medo é medo, não é? (risos)”, diverte-se ele, antes de olhar em retrospecto para — quase — quatro décadas de vida. “Hoje, sou muito mais maduro. As porradas me mostraram os caminhos que deveria seguir. Mas acho que acertei mais do que errei. Tanto que estou vivo até hoje”.
Com selo independente, o ‘repeiro’ — assim prefere ser chamado — se aproxima cada vez mais da internet. O que não significa que se afastará da TV, que o tornou pop. “Sempre fiz críticas ao comportamento televisivo, mas nunca de uma forma exclusiva. Digo: ‘Olha, essa novela de escravo fere nosso orgulho, nossa história’. Não acho que seja crime aparecer na televisão. Crime é criticar quem aparece, mas estar sempre ligado na telinha”, desabafa ele, que já teve até papel em ‘Malhação’ e, atualmente, apresenta programas na TV Brasil (‘Aglomerado’) e no Canal Brasil (‘O Bagulho É Doido’).
Um dos fundadores da Central Única das Favelas (Cufa), MV Bill também observa que o rap deve estar atento às mudanças sociais. “Aquele mesmo jovem que, nos anos 90, andava descalço com uma pistola na cintura e perspectiva de ser criminoso, hoje, em algumas favelas, está com dois brincos de diamante na orelha e telefone que o conecta com o mundo inteiro através da internet. Se o rap não acompanhar essa evolução, fica para trás”, afirma, fazendo ressalva às melhorias trazidas pelas UPPs.
“O papel das UPPs é de pacificação. No momento, estão fazendo apenas ocupação. É preciso um emaranhado de tentáculos governamentais atuando nessas áreas. E o Rio tem 800 favelas. É muito cedo para comemorar”, acredita. 
Na pele do Tonhão
Se é criticado por investir também na carreira de ator, MV Bill decidiu acabar de vez com esse preconceito: aparecerá nas telonas como o policial Tonhão em ‘Dia dos Namorados’ — que também tem no elenco Daniel Boaventura, Heloísa Périssé e Daniele Winits. O longa estreia no dia 7 de junho. “Como é uma comédia, não foi necessária uma postura policial verdadeira. E o personagem não tem muita fala. É mais expressão facial”, explica ele, que sonha ser roteirista. “É como brincar de Deus. Já tenho alguns rabiscos”.
Ao mesmo tempo, há planos para a literatura: um novo livro deve sair ainda este ano. “Eu e o Celso Athayde vamos contar histórias de nossas vidas. Em 1985, por exemplo, o que ele estava fazendo na Favela do Sapo, em Senador Camará, e o que eu estava fazendo aqui? Contaremos nossas histórias até o momento em que a gente se conhece, em 1998”, diz.
Reportagem de Rodrigo Cabral