São Paulo não está pronta para luta contra o crack
Burocracia e falta de profissionais e leitos aumentam a angústia de famílias que pedem, desesperadas, a internação de viciados
POR ANDRÉ PIRES
Foto: Luiz Fernando Menezes / Agência O Dia
“Meu filho foi medicado. Amarrei ele ontem e trouxe hoje cedo. O problema é que não estão achando vaga em clínica. É tudo uma bagunça”, afirmou Sônia Aparecida, que pediu a internação involuntária de Elsion, 22 anos.
O problema é que esta informação demora cerca de quatro horas a chegar às famílias. “Perdi um dia de trabalho e vou voltar para casa sem salvar meu filho”, desabafou Valmira Andrade de Souza.
A desorganização ficou provada quando Denis Navarro, dependente que se internou voluntariamente na segunda-feira, foi liberado para fumar cigarro. Sem aparentar estar drogado, o garoto de 18 anos teve um surto e agrediu um cinegrafista na rua. Foi preciso reforço policial para levá-lo de volta ao ambulatório.
Pelo segundo dia seguido, apesar da movimentação, nenhum caso de internação compulsória foi levada ao juiz.
'Meu filho vive como um zumbi’
Durante a manhã de ontem, a reportagem do DIA acompanhou o drama das mães de usuários de crack. Sentadas lado a lado, elas contaram com lágrimas nos olhos o sofrimento diário no convívio com os dependentes. E o mais incrível: as histórias são muito parecidas. “Meu filho ficou violento, ameaça matar com faca quando está drogado”, contou Eunice Moreira, que pedia a internação de seu filho Antônio, 25 anos, e e da filha Otaviana, 33, que tem sete filhos, hoje em um abrigo. Eunice tenta a guarda dos netos na Justiça.
O crack claramente atinge todas as faixas etárias. De jovens a idosos, como o caso do pai de Ana Paula Mira, que aos 62 anos foi levado dopado pela filha. Símbolo do primeiro dia do projeto, ele demorou um dia inteiro para conseguir vaga.
As mães discordam da ordem que o Samu tem de só buscar usuários que estão correndo risco. “Meu filho vive como um zumbi e nunca vai aceitar vir”, desabafou Eunice.
Enquanto isso, na sede do governo...
Famílias tentam obter ajuda para tirar os parentes do vício mas o poder público tem outras prioridades. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), e o prefeito da capital, Fernando Haddad (PT), se reuniram ontem no Palácio dos Bandeirantes, para oficializar uma parceria para a construção de 20 creches, com investimento de R$ 46 milhões. Também foram anunciadas outras iniciativas em conjunto, como um aporte financeiro da prefeitura de R$ 20 mil para cada uma das 2.230 unidades habitacionais que serão feitas pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional Urbano (CDHU) nos próximos anos.
A harmonia e a troca de gentilezas em público entre os dois adversários políticos aconteceram quase uma semana depois de o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter aconselhado o afilhado a trabalhar junto com Alckmin.
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