São Paulo -  Mães desesperadas e dependentes químicos procurando a internação. O segundo dia da ação especial do governo de São Paulo para internação compulsória de usuários de drogas foi marcado por tumultos e uma triste realidade: a estrutura ainda é precária para atender a demanda. Faltam vagas em clínicas, preparo dos profissionais para lidar com o problema e agilidade para esclarecer as dúvidas dos parentes de viciados.
Foto: Luiz Fernando Menezes / Ag. O Dia
Foto: Luiz Fernando Menezes / Agência O Dia
“Meu filho foi medicado. Amarrei ele ontem e trouxe hoje cedo. O problema é que não estão achando vaga em clínica. É tudo uma bagunça”, afirmou Sônia Aparecida, que pediu a internação involuntária de Elsion, 22 anos.
Desde cedo, mães se cadastravam pedindo que seus filhos fossem buscados pelo governo nas ruas ou em casa. O problema é que o Cratod, local onde funciona o plantão judicial para internação compulsória, não busca os dependentes. “A orientação é afamília ligar para o Samu”, explica o juiz Samuel Karasin.
O problema é que esta informação demora cerca de quatro horas a chegar às famílias. “Perdi um dia de trabalho e vou voltar para casa sem salvar meu filho”, desabafou Valmira Andrade de Souza.
Com apenas 10 leitos ambulatoriais no Cratod, que já estão lotados, o projeto começa a desagradar. “Mandaram eu levar para o serviço da Prefeitura. Lá não adianta: interna de manhã e libera de tarde”, reclamou Maria das Graças Luz, mãe de Michelle, que tem 30 anos e está grávida do oitavo filho. Para fumar crack, ela trocou cinco filhos por dinheiroou droga. Um deles é criado pela avó e outro está para adoção.
A desorganização ficou provada quando Denis Navarro, dependente que se internou voluntariamente na segunda-feira, foi liberado para fumar cigarro. Sem aparentar estar drogado, o garoto de 18 anos teve um surto e agrediu um cinegrafista na rua. Foi preciso reforço policial para levá-lo de volta ao ambulatório.
Pelo segundo dia seguido, apesar da movimentação, nenhum caso de internação compulsória foi levada ao juiz.
'Meu filho vive como um zumbi’
Durante a manhã de ontem, a reportagem do DIA acompanhou o drama das mães de usuários de crack. Sentadas lado a lado, elas contaram com lágrimas nos olhos o sofrimento diário no convívio com os dependentes. E o mais incrível: as histórias são muito parecidas. “Meu filho ficou violento, ameaça matar com faca quando está drogado”, contou Eunice Moreira, que pedia a internação de seu filho Antônio, 25 anos, e e da filha Otaviana, 33, que tem sete filhos, hoje em um abrigo. Eunice tenta a guarda dos netos na Justiça.
O crack claramente atinge todas as faixas etárias. De jovens a idosos, como o caso do pai de Ana Paula Mira, que aos 62 anos foi levado dopado pela filha. Símbolo do primeiro dia do projeto, ele demorou um dia inteiro para conseguir vaga.
As mães discordam da ordem que o Samu tem de só buscar usuários que estão correndo risco. “Meu filho vive como um zumbi e nunca vai aceitar vir”, desabafou Eunice.
Enquanto isso, na sede do governo...
Famílias tentam obter ajuda para tirar os parentes do vício mas o poder público tem outras prioridades. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), e o prefeito da capital, Fernando Haddad (PT), se reuniram ontem no Palácio dos Bandeirantes, para oficializar uma parceria para a construção de 20 creches, com investimento de R$ 46 milhões. Também foram anunciadas outras iniciativas em conjunto, como um aporte financeiro da prefeitura de R$ 20 mil para cada uma das 2.230 unidades habitacionais que serão feitas pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional Urbano (CDHU) nos próximos anos.
A harmonia e a troca de gentilezas em público entre os dois adversários políticos aconteceram quase uma semana depois de o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter aconselhado o afilhado a trabalhar junto com Alckmin.