Rio -  Adoro fazer aniversário! Eu sei que a gente fica mais velha, etc e tal, mas nem ligo. Prefiro envelhecer do que a outra hipótese, se é que vocês me entendem, portanto curto sempre e muito meu aniversário. Claro que eu preferia que não fosse tão perto do Réveillon, porque seria, com certeza, mais animado, já que sendo tão perto da festa, muitos amigos estão viajando e muita gente está de dieta e nem quer ouvir falar em festa porque ainda está se recuperando da rebordosa da virada do ano. Mas o pior é a chuva. E sempre chove. Às vezes, torrencialmente como acontece em quase todo janeiro.
Pra ser sincera, quando eu era pequena, a chuva me incomodava mais, minha mãe era muito habilidosa, fazia bolos lindos, caprichava nos docinhos, a mesa ficava linda, mas bem na hora da festa, a chuva caía pesada, a rua enchia e para esperar a chuva passar e me distrair ela me fotografava na mesa do bolo. Eu e ele e mais ninguém. Tenho muitas fotos destes aniversários, na mais completa solidão. Eu, o bolo e o vestido de organdi, que eu odiava e que dona Araci fazia com esmero. Era o dia que eu podia escolher o almoço e podia, também, esquecer o jantar, o que era a melhor parte. Mas voltando às chuvas, elas não chegaram a me traumatizar. Continuo gostando do meu aniversário. E continua chovendo. E, parece maldição, a rua em que moro, hoje, também enche. Gosto dos telefonemas, das mensagens, das flores, de tudo. Hoje em dia só não gosto mais porque nunca consigo fazer a festa que gostaria, ou seja, gigantesca, para caber todo mundo que eu gosto de ver, de estar e de falar. Todo ano começo a tal da lista dos convidados, mas me dá um desânimo e acabo não fazendo festa alguma.
Claro que envelhecer não é lá das coisas mais divertidas da vida. Aparecem rugas novas, os joelhos arranjam um jeito de doer mais, mas o que mais me irrita é como os cabelos da gente mudam com o tempo e isto ninguém avisa que vai acontecer. Só falam das rugas, mas com elas, no dia a dia, a gente se acostuma e até se assusta quando encontra antigas amigas e amigos do colégio e constata o envelhecimento deles, como se a gente tivesse passado imune pelo tempo. Mas estar viva é tão bom, fico muito feliz por isto e acho que vale a pena seguir mantendo o humor em dia, controlar as taxas que também mudam com a idade e, no meu caso, torcer para que a chuva não seja tão implacável quanto já foi em algum outro janeiro.
Leda Nagle é jornalista, escritora e apresenta na TV o ‘Sem Censura’