Rio -  Juridicamente, pertence à Polícia Civil o prédio de 1910 localizado na Rua da Relação, no Centro do Rio. Sua reforma, no projeto idealizado pela força policial, inclui lojas para exploração comercial, privada. Somente o segundo andar seria destinado a um museu da força, e celas da carceragem, que receberam nomes de presos políticos, abertas à visitação pública.
Ocorre que o chamado Palácio da Polícia Central foi um dos principais destinos de presos políticos dos regimes ditatoriais que infelicitaram nosso país, o Estado Novo de Getúlio Vargas e os governos militares que sucederam o golpe de 1964. Naquele prédio, pessoas aprisionadas por suas convicções e seu ativismo político encontraram em agentes do Estado algozes que torturaram e mataram, cometendo os mais bárbaros e aviltantes ataques à dignidade humana.
Nós, da Ordem dos Advogados do Brasil, com o apoio da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, da Comissão Nacional da Verdade e das mais representativas organizações civis de defesa dos direitos humanos, há tempos pleiteamos a transformação da ex-sede do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) num espaço de memória — para que jamais se repita o que ali aconteceu — e de valorização da democracia. Um centro de debates, de reflexão e de estímulo às liberdades políticas
Parece-nos que relegar a importância histórica e simbólica daquele prédio a um pequeno espaço dentro de um shopping é promover o esquecimento do muito que se lutou para reconquistarmos o Estado Democrático de Direito. Bem fará o governo do Estado do Rio se usar de sensibilidade política e ouvir a sociedade sobre o melhor destino a ser dado ao número 40 da Rua da Relação.
Conselheiro federal da Ordem dos Advogados do Brasil pelo Rio de Janeiro