Rio -  A falta d’água que atormenta moradores de ao menos oito bairros do Rio, de São Gonçalo e da Baixada desde o Natal fez a população desistir de esperar providências do estado. Em São João de Meriti, por exemplo, moradores arregaçaram as mangas e escavaram as vias públicas para retirar água diretamente das tubulações da Cedae e abastecer as casas. O desespero aumenta com o calor extremo — ontem a temperatura bateu 40,7 graus, mas a sensação térmica foi de 50, maior que a registrada no dia mais quente da história do Rio, em 26 de dezembro.
Moradores furaram cano e colocaram bomba para abastecer casas em Meriti | Foto: Fábio Gonçalves / Agência O Dia
Moradores furaram cano e colocaram bomba para abastecer casas em Meriti | Foto: Fábio Gonçalves / Agência O Dia
“É um ato de aflição da comunidade. Como a água não tem força para chegar às torneiras, os vizinhos perfuraram poço na rua e instalaram uma bomba (hidráulica) narede pública. Tem sido a nossa salvação desde sexta-feira”, argumentou Tupiara da Silva, 57 anos.
No local, moradores se revezam à noite para não deixar que o equipamento seja furtado ou que técnicos da Cedae desfaçam a ligação.
Em Vista Alegre, na Zona Norte do Rio, uma rua inteira, a Desembargador Oldemar Pacheco, protesta: as contas chegam em dia, ao contrário da água. “O sofrimento e o constrangimento é o mesmo para os vizinhos da Vila da Penha, Cordovil e Penha Circular. Pagamos nossas contas em dia, só queremos ter acesso a um recurso básico”, reclamou Luiz Felipe Stevanim, 43.
Em Madureira, também na Zona Norte, na Rua Firmino Fragoso, a aposentada Maria do Carmo Carvalho, sofre com dores nas pernas e problemas na coluna, pois, aos 75 anos, encara uma nova rotina: carregar garrafas e vasilhas de água para casa. “Lavar louça é um sacrifício. Mas o pior é ter que tomar banho usando balde. É humilhante”, reclamou a idosa.
Eliane Rocha Bastos, 59, moradora da Rua Benedito Kelly, no bairro Santa Eugênia, em Nova Iguaçu, na Baixada, conta que a última vez que caiu água em sua caixa d’água foi antes do Natal. “Eu e meus dois filhos tivemos que passar as festas de final de ano na casa da minha mãe, em outro ponto da cidade. Até hoje estamos sem água”, lamentou.
Também é crítica a situação nas ruas Itaverava, Fritz Feigl, Antônio Cordeiro, Zoroastro Pamplona, Estrada do Bananal, entre outras, em Jacarepaguá. Moradores do Recreio, Barra da Tijuca, na Zona Oeste, além de Vila Eugênia, em São Gonçalo, também se queixam da escassez de água nas torneiras.
Desperdício e redes antigas seriam causas
Para o professor Paulo Canedo, coordenador do Laboratório de Hidrologia da Coppe-UFRJ, a culpa da falta d’água em bairros do Rio em épocas de forte calor é da própria Cedae. “Como já foi alertado várias vezes, a empresa desperdiça 40% da água tratada que produz, ou seja, quase a metade, com vazamentos em suas obsoletas redes de abastecimento”, ressaltou Canedo.
De acordo com o especialista, se a Cedae já estivesse reestruturado todo seu encanamento antigo, a população não estaria enfrentando sufoco. “A Cedae diz que o desperdício e o furto de água por parte dos moradores é que provocam colapso no sistema. É claro que esses tipos de atitudes são criminosas, mas as perdas são infinitamente menores em relação aos desperdícios que não são corrigidos pela própria empresa”, comentou Canedo.
Substituição lenta da rede
A Cedae informou que vem substituindo cerca de 200 km de tubulações por ano desde o ano de 2007. O total já substituído chega a 1.200, menos de 3,5% da extensão de sua rede, que tem 20 mil km de redes de água e 15 mil km de redes de esgoto.
A empresa argumentou que tem perda estimada de pouco mais de 30% da água produzida, a maioria por ligações clandestinas, inadimplência e perdas técnicas.
Quanto aos investimentos, a empresa informou que, em parceria com o governo Sérgio Cabral, já injetou cerca de R$ 3 bilhões em mais de 200 frentes de obras em todo o estado. Só em São Gonçalo foram gastos R$ 200 milhões.
CEDAE: CULPA DE TERCEIROS
A Cedae garantiu ontem, através da assessoria de imprensa, que “não há bairro totalmente com falta d’água”, mas admitiu não ter registro de quantos consumidores enfrentam o problema. A empresa alegou que “vem sofrendo diversos rompimentos de suas tubulações por obras de terceiros (BRT, Transcarioca, condomínios privados)”.
“Além disso, diversos apagões no sistema elétrico que atende o Guandu e importantes elevatórias de água prejudicaram o abastecimento em várias regiões”, diz um trecho da justificativa dada pela concessionária.
Na mesma resposta, a companhia afirmou que a Estação de Tratamento (ETA) Guandu bateu recorde de produção este mês, com 46 mil litros de água produzidos por segundo. “O único problema que atingiu a estação foi falta de energia elétrica. O booster (bomba que mantém a pressão na rede) da Baixada parou mais de 10 vezes por falta de energia, assim como outras grandes elevatórias da cidade”.
A ETA Guandu é responsável pelo abastecimento de 85% do Rio e 70% da Baixada, totalizando 8,5 milhões de consumidores, com o tratamento de 43 mil litros de água por segundo. A Cedae informou ainda que houve aumento de 40% de consumo em algumas regiões por causa do calor, mas na média o aumento foi de 30%. Já as contas aumentaram 9% a partir de agosto.