Rio -  De há muito que as luzes dos holofotes das escolas de samba não invertiam a direção de seus raios: do palco para as coxias, iluminam a crise financeira, administrativa e de credibilidade das agremiações e vem predominando o noticiário da imprensa (com direito à metade da primeira página de jornal e, em fins do ano passado, matéria de capa de revista semanal), em geral nesta época dedicado às beldades e a criar expectativas sobre o desfile.
É verdade que, de um lustro para cá, a grande imprensa não tem deixado este assunto à distância, como se fora desinteressante para o grande público – em tese mais preocupado com o oba-oba do carnaval – e de interesse público. Mas a dimensão atual talvez seja o sintoma de que tenha saltado aos olhos da opinião pública a grande distância entre o que se diz das escolas de samba e o que elas realizam na prática. Em linguagem filosófica: a dicotomia entre logos e práxis.
Foto: Maíra Coelho / Agência O Dia
Alegoria no barracão da Beija-Flor. Escola de Nilópolis está com 80% das alegorias prontas |Foto: Maíra Coelho / Agência O Dia
Para entendê-la, deve-se ter claro que escolas de samba dividem-se em dois momentos: no carnaval, o seu ápice, e no restante do ano, quando se preparam para desfilar. O desfile do Grupo Especial é uma atração internacional que, pela sua centralidade cultural-midiática, recebeu a alcunha de O maior espetáculo da Terra.
Mas essa alcunha se refere ao produto final, não ao seu processo de fabricação. E se revela um evento feérico que encanta a nós todos, transmite a ilusão de que a linha de montagem desse evento lhe é proporcional em estrutura e grandeza. Nada mais sintomático disso do que esta notícia publicada em janeiro de 2008 nos jornais brasileiros:
O dia de preparativos para o carnaval terminou mais cedo nesta segunda-feira em muitos barracões da Cidade do Samba. Ao saberem da presença de fiscais da Delegacia Regional do Trabalho (DRT), algumas escolas do Grupo Especial dispensaram os funcionários mais cedo. O objetivo da DRT era verificar se as escolas cumprem a legislação que exige que os funcionários tenham contratos de trabalho e desempenhem suas funções em segurança. O balanço da blitz deve serdivulgado nesta terça-feira.
- Em meados de 2007, tivemos uma reunião com diretores das escolas e os orientamos a cumprir a legislação trabalhista - explicou o chefe da fiscalização da DRT, Márcio Guerra. Às 16h, na Beija-Flor, por exemplo, o segurança informava que todos os funcionários já tinham deixado o barracão. O movimento também era reduzido no barracão da Imperatriz Leopoldinense.
O gigantismo da Cidade do Samba, espetacular equipamento urbano que alimentou o discurso da profissionalização do carnaval, em verdade não significou que antigas e arcaicas práticas tenham se transformado.
Não se trata, nesse caso, da dicotomia tradição versus modernidade, que é reducionista, não explica a complexidade do assunto e, por apoiar-se numa lógica binária, aprisiona a discussão. No processo histórico, tradição convive com a modernidade; não é uma relação excludente. A modernidade é assim chamada porque coexiste, no mesmo campo da ação moderna, com um outro referencial.
A expressão mais apropriada para definir a aparente contradição d’O maior espetáculo da Terra é “modernização conservadora”. É um conceito que, a partir dos anos 60, incorporou-se ao linguajar das ciências sociais brasileiras para explicar a permanência das desigualdades apesar do processo de modernização.
O desfile das escolas de samba reflete, em seu universo, a modernização conservadora. O profissionalismo do showbusiness, visível no dia de desfile e na organização do evento, coaduna-se com o amadorismo: trabalhadores, sem qualificação e mal remunerados, não têm garantias trabalhistas – muitas vezes não conseguem sequer receber – e estão sujeitos a desmandos e a péssimas relações pessoais no trabalho.
Dirigentes incompetentes sem qualquer qualificação para o cargo e sem qualquer compromisso com e dinastias que se perpetuam no comando das agremiações. Submundos que todos sabem existir, mas fingem não ver: fechamos os olhos a eles, com o ridículo argumento de que se trata de algo à parte do carnaval. Foi um desses submundos, aliás, que contribuíram decisivamente para a transformação do desfile neste espetáculo. Voltarei a este assunto na próxima coluna.