Bruno Filippo: A crise nas escolas de samba
Colunista analisa distância entre a prática e o discurso e modernização conservadora
POR BRUNO FILIPPO
Rio - De há muito que as luzes dos holofotes das escolas de samba não invertiam a direção de seus raios: do palco para as coxias, iluminam a crise financeira, administrativa e de credibilidade das agremiações e vem predominando o noticiário da imprensa (com direito à metade da primeira página de jornal e, em fins do ano passado, matéria de capa de revista semanal), em geral nesta época dedicado às beldades e a criar expectativas sobre o desfile.
Alegoria no barracão da Beija-Flor. Escola de Nilópolis está com 80% das alegorias prontas |Foto: Maíra Coelho / Agência O Dia
Para entendê-la, deve-se ter claro que escolas de samba dividem-se em dois momentos: no carnaval, o seu ápice, e no restante do ano, quando se preparam para desfilar. O desfile do Grupo Especial é uma atração internacional que, pela sua centralidade cultural-midiática, recebeu a alcunha de O maior espetáculo da Terra.
- Em meados de 2007, tivemos uma reunião com diretores das escolas e os orientamos a cumprir a legislação trabalhista - explicou o chefe da fiscalização da DRT, Márcio Guerra. Às 16h, na Beija-Flor, por exemplo, o segurança informava que todos os funcionários já tinham deixado o barracão. O movimento também era reduzido no barracão da Imperatriz Leopoldinense.
O gigantismo da Cidade do Samba, espetacular equipamento urbano que alimentou o discurso da profissionalização do carnaval, em verdade não significou que antigas e arcaicas práticas tenham se transformado.
Não se trata, nesse caso, da dicotomia tradição versus modernidade, que é reducionista, não explica a complexidade do assunto e, por apoiar-se numa lógica binária, aprisiona a discussão. No processo histórico, tradição convive com a modernidade; não é uma relação excludente. A modernidade é assim chamada porque coexiste, no mesmo campo da ação moderna, com um outro referencial.
A expressão mais apropriada para definir a aparente contradição d’O maior espetáculo da Terra é “modernização conservadora”. É um conceito que, a partir dos anos 60, incorporou-se ao linguajar das ciências sociais brasileiras para explicar a permanência das desigualdades apesar do processo de modernização.
O desfile das escolas de samba reflete, em seu universo, a modernização conservadora. O profissionalismo do showbusiness, visível no dia de desfile e na organização do evento, coaduna-se com o amadorismo: trabalhadores, sem qualificação e mal remunerados, não têm garantias trabalhistas – muitas vezes não conseguem sequer receber – e estão sujeitos a desmandos e a péssimas relações pessoais no trabalho.
Dirigentes incompetentes sem qualquer qualificação para o cargo e sem qualquer compromisso com e dinastias que se perpetuam no comando das agremiações. Submundos que todos sabem existir, mas fingem não ver: fechamos os olhos a eles, com o ridículo argumento de que se trata de algo à parte do carnaval. Foi um desses submundos, aliás, que contribuíram decisivamente para a transformação do desfile neste espetáculo. Voltarei a este assunto na próxima coluna.
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