Rio -  Um ano após ser inaugurado, o Into ainda funciona com 60% de sua capacidade prevista. Para o diretor da unidade hospitalar, Naasson Cavanellas, alcançar a marca de 300 mil — hoje são 180 mil — consultas por ano e suprir o déficit de profissionais ainda levará de um a dois anos.

“Não esperávamos essa confusão, mas isso não irá se repetir. Também não temos um call center para milhares de ligações simultâneas, mas vamos reforçar o serviço nos próximos dias”, prometeu. De acordo com Naasson, hoje o hospital tem 20 mil pacientes à espera de cirurgias: “Estamos tentando suprir a carência de médicos”.

Para marcar a consulta por telefone, o paciente deve apresentar o número do prontuário e nome do médico solicitante, tendo em vista que já houve triagem prévia no próprio Into.
Foto: Severino Silva / Agência O Dia
Foto: Severino Silva / Agência O Dia
Pacientes em fila desde a madrugada

Três horas da madrugada desta segunda-feira: Jaqueline Lino Rocha e a filha, Lousiane, 12 anos, que sofre de escoliose em estágio avançado, partem de Itaguaí, 90 km do Rio, para o Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), na Zona Portuária.

Há três anos, a mãe busca atendimento para o problema na coluna da menina, que dificulta sua respiração. Nesta segunda, o alívio de conseguir uma senha para ela ser avaliada no ano que vem por um ortopedista veio só após nove horas e muita confusão sob sol forte.

A jovem e outros cerca de 1.500 pacientes disputaram as 400 vagas que eram oferecidas para o primeiro semestre de 2013. De manhã, como a maioria da multidão ficou sem o serviço, ouviram-se gritos de "queremos solução", houve tumulto, pessoas desmaiaram e até a polícia foi chamada.
Foto: Severino Silva / Agência O Dia
Mulher passou mal após horas na fila | Foto: Severino Silva / Agência O Dia
Entre os pacientes indignados, havia muitos idosos, pessoas com muletas, que saíram de longe e enfrentaram sufoco desde domingo à noite, quando a fila começou a se formar.

Com demanda de pacientes no primeiro dia — dos cinco dias de distribuição das senhas — quase quatro vezes superior à prevista, a direção do Into decidiu dar senha a todos os mil que permaneciam lá, muitos decididos a dormir na rua até o dia seguinte. O instituto também aboliu a distribuição presencial de senhas. A partir de hoje, o agendamento será só por telefone.

O DIA constatou, no entanto, depois de mais de 20 ligações sem sucesso para o 2134-5000, que o sistema, que deveria funcionar das 7h às 19h, é falho.
Foto: Severino Silva / Agência O Dia
Pacientes se manifestaram aos gritos de ‘queremos solução’ e ‘vergonha’ | Foto: Severino Silva / Agência O Dia
“O máximo que consegui em três anos para minha filha foi uma consulta com médico que disse para ela ir ao setor especializado de coluna. Aí, não consegui mais vaga. Ela já não consegue respirar direito e o rendimento na escola piorou. É difícil depender da saúde pública”, desabafou Jaqueline.

“Se preocupam com Copa do Mundo, mas não se preocupam com a saúde do povo”, reclamou, aos prantos, a costureira Maria Eni Ferreira, 56, que sofre de osteoporose.

Unidades federais no Rio têm déficit de médicos

Além do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), no Centro, outras seis unidades federais do Rio, como os hospitais da Lagoa, Ipanema, Bonsucesso, Cardoso Fontes, Andaraí e dos Servidores do Estado, são alvos frequentes de reclamação dos pacientes. Faltam funcionários, sobretudo médicos, e material hospitalar.

“Os hospitais federais estão sucateados. São sucursais do inferno”, definiu o defensor público federal Daniel Macedo. O presidente do Sindicato dos Médicos do Rio, Jorge Darze, lista, entre outras coisas, os baixos salários oferecidos aos profissionais como causas do problema. “Faltam médicos e muitos são contratados de forma temporária. É um tiro no pé. As unidades de Bonsucesso e Andaraí estão com obras atrasadas”, afirmou.

Segundo o secretário Nacional de Atenção à Saúde, do Ministério da Saúde, Helvécio Magalhães, o tumulto no Into não vai mais acontecer e de forma emergencial vai propor a contratação temporária de médicos para todo o país. O Ministério da Saúde promete melhorar o sistema de agendamento de consultas.