Rio -  Desde a pacificação, em janeiro, a varanda do casarão do grupo teatral ‘Nós do Morro’, no alto do Vidigal, tem sido cenário de diálogos improváveis em outros tempos.
O DIA e MEIA HORA testemunharam um deles no entardecer da segunda-feira, quando moradores, artistas, líderes comunitários e estudiosos chegavam para o debate ‘Pacificação, e Agora?’, sobre o futuro das comunidades ocupadas por UPPs.
Schneider Pinheiro, 38 anos, foi sequestrador, comandou o tráfico em cinco favelas e passou mais de dez anos preso. Na varanda, ele se aproxima do tenente Jairo Dantas, 33, subcomandante da UPP local, pede licença e se abre em elogios.
Foto: Alexandre Brum / Agência O Dia
Aziz Filho, editor-chefe de O DIA, entre o oficial da PM e o ex-traficante | Foto: Alexandre Brum / Agência O Dia
“Botei mais fé na UPP ao ver que escolheram jovens nascidos na comunidade. Fico feliz porque você é do Vidigal. Lembra do Bidi? Ele virou pastor! Só não te dou o telefone dele porque fui assaltado semana passada e levaram meu celular”, dispara Schneider.
Bidi é um ex-traficante preso. Schneider fala pelos cotovelos, com poucas pausas para respirar, e se empolga para tirar fotos com o tenente fardado, que sorri, orgulhoso.
Subcomandante da UPP saiu do morro aos 27 anos para virar oficial
O tenente que Schneider elogia saiu da favela com 27 anos, cursou a Academia da PM e voltou para levar a paz ao morro. Ainda são fortes as lembranças de infância do medo de fuzis que dominavam a favela. “Sou nascido e criado aqui. É muito bom poder ajudar a reconstruir a história do Vidigal”, diz o oficial.
Depois de cumprir pena na prisão, Schneider encontrou do lado de fora o coração de mãe do Afroreggae, ONG que surgiu em Vigário Geral nos anos 90. Hoje, enche o peito para contar que é coordenador de Empregabilidade do Afroreggae. “Fui promovido a coordenador”, gaba-se.
O homem que era chamado de Latino hoje fala com figurões de grandes empresas em busca de oportunidades para ex-presidiários. “Já empreguei mais de 500”, contabiliza.
O ex-traficante e o PM seguem para o anfiteatro do Nós do Morro para o debate, que busca identificar questões estratégicas das favelas neste novo tempo, de diálogos improváveis. Schneider vai para a mesa de debatedores, e o tenente o aplaude, na platéia. A cobertura estará em nossa edição de domingo.