Para receber propina, policiais ameaçavam cancelar baile funk
| POR | DIEGO VALDEVINO JOÃO ANTONIO BARROS MARCELLO VICTOR |
Rio - Através do monitoramento dos telefones, a polícia ouviu “negócios” feitos este ano entre PMs e traficantes presos na Operação Purificação, nesta terça-feira. Em um deles, os policiais ameaçaram cancelar um baile funk na Favela Vai Quem Quer, em Nova Campina.
Divididos em bondes — mas como se fossem facções amigas —, os agentes mostram que lotearam os bairros de Caxias. Combinam, inclusive, dividir a rota para recolher propinas.
A investigação mostra o sargento Sérgio Fernandes Odilon negociando, em junho, com traficante depósito de R$ 1,9 mil em sua conta bancária. Ele pede ao bandido para conhecer a sua casa, uma cobertura. O traficante diz: “nunca vi alguém que ama tanto o metal”.
Divididos em bondes — mas como se fossem facções amigas —, os agentes mostram que lotearam os bairros de Caxias. Combinam, inclusive, dividir a rota para recolher propinas.
A investigação mostra o sargento Sérgio Fernandes Odilon negociando, em junho, com traficante depósito de R$ 1,9 mil em sua conta bancária. Ele pede ao bandido para conhecer a sua casa, uma cobertura. O traficante diz: “nunca vi alguém que ama tanto o metal”.
Megaoperação prende 59 PMs
Operação Purificação cumpre mandados de busca e apreensão contra policiais militares suspeitos de ligação com o tráfico. PMs eram lotados no batalhão de Caxias na época do ínicio das investigações
Outras escutas revelam as extorsões praticadas. Numa delas, o grupo sequestra três pessoas e exige R$ 200 mil. Os bandidos oferecem R$ 7 mil e o policial diz que o superior não aceitou a proposta. Os detidos vão para a 62ª (Imbariê).
Baile funk
Em quatro momentos das escutas, os policiais atribuem aos estrelas — como são conhecidos os oficiais — ordens para aumentar o valor das propinas.
Numa delas, um policial militar não identificado manda o traficante Willian Moreira da Silva, o Pit, cancelar o baile funk na favela Vai Quem Quer, em Nova Campina. E diz que a ordem é do “estrela abaixo do Dono”, numa alusão ao subcomandante do 15º BPM.
Erir Costa Filho (esq) e Beltrame em coletiva | Foto: Estefan Radovicz / Agência O Dia
Uma hora depois, o policial retorna ao criminoso e diz que “suou e resolveu”, mas “ tem que vir R$ 3 mil do arrego e R$ 2 mil do baile. Em outro trecho, um PM avisa ao traficante que, como não houve propina, lotou a favela de “formigas” (policiais) e avisa que o “estrela” quer R$ 200 mil.
O traficante Léo Centenário diz que não tem como pagar. Em outro momento, o sargento Odimar Mendes dos Santos diz para um traficante que o “estrela” mandou perguntar se o negócio (propina) está certo.
Como houve operação, o bandido se nega a dar os R$ 400 pedidos. Nesta terça-feira, mulheres de policiais presos choraram próximo ao ônibus em que eles estavam.
Vergonha: 63 presos
Ao todo, 63 PMs que atuaram no 15º BPM (Duque de Caxias) foram presos por receber propinas semanais para deixar de reprimir a venda de drogas em 13 favelas de Caxias.
Os negócios entre policiais e traficantes eram tão intensos que os chamados arregos eram pagos inclusive a quem estava de folga ou de férias e depositados em conta corrente. Em média, os bandidos pagavam R$ 2,5 mil por patrulha, onde trabalham quatro PMs.
A Polícia acredita que, no total, os agentes tenham recebido R$ 150 mil em propinas. Onze traficantes foram detidos. A quadrilha era chefiada por Carlos Braz Vitor da Silva, o Fiote, homem de confiança de Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, e que mesmo preso controlava a compra de drogas e pagamentos do tráfico.
O traficante Léo Centenário diz que não tem como pagar. Em outro momento, o sargento Odimar Mendes dos Santos diz para um traficante que o “estrela” mandou perguntar se o negócio (propina) está certo.
Como houve operação, o bandido se nega a dar os R$ 400 pedidos. Nesta terça-feira, mulheres de policiais presos choraram próximo ao ônibus em que eles estavam.
Vergonha: 63 presos
Ao todo, 63 PMs que atuaram no 15º BPM (Duque de Caxias) foram presos por receber propinas semanais para deixar de reprimir a venda de drogas em 13 favelas de Caxias.
Os negócios entre policiais e traficantes eram tão intensos que os chamados arregos eram pagos inclusive a quem estava de folga ou de férias e depositados em conta corrente. Em média, os bandidos pagavam R$ 2,5 mil por patrulha, onde trabalham quatro PMs.
A Polícia acredita que, no total, os agentes tenham recebido R$ 150 mil em propinas. Onze traficantes foram detidos. A quadrilha era chefiada por Carlos Braz Vitor da Silva, o Fiote, homem de confiança de Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, e que mesmo preso controlava a compra de drogas e pagamentos do tráfico.
Ao sair do Quartel-General da PM, no Centro, parte de policiais detidos é levada para o presídio Bangu 8 | Foto: André Luiz Mello / Agência O Dia
Entre os presos está Valdirene Farias de Barros, mulher de Fiote e falsa pastora da Igreja Assembleia de Deus da Restauração dos Vasos. Ela seria a intermediária entre tráfico e PMs.
Um ano de investigação
A investigação, coordenada pela Subsecretaria de Inteligência e o Ministério Público, levou um ano e acompanhou conversas telefônicas entre PMs e traficantes. Os agentes serviam em destacamentos de seis bairros de Caxias e nos grupos de ações táticas, criados para coibir o tráfico.
Escutas autorizadas pela Justiça mostram rotina de extorsões praticadas pelos policiais quando propinas atrasavam ou não eram pagas. Para compensar, houve episódio em que o PM se comprometeu a depôr na Justiça a favor do bandido preso. Os militares foram presos em Bangu 8.
O secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, espera pela expulsão sumária da polícia dos envolvidos em 30 dias. O comandante do 15º BPM, tenente-coronel Claudio Lucas Lima, foi exonerado.
Glossário
-Feitiço
Traficantes e policiais usam códigos e alguns chamam a atenção, como o Feitiço — usado na mistura de lidocaína e cafeína à cocaína para aumentar lucros.
Sintonia é como os PMs dizem que o agente está do lado do traficante e, Vento, é como a propina é chamada nas conversas. As Patamos são barcas.
-Cemitério
Locais para pagar as propinas. O sargento Wagner Teixeira Gonçalves, ao falar com o traficante Léo, diz que está a caminho do pé-junto (Cemitério) onde irá receber o "arrego". A ousadia era tanta, que até no destacamento bandidos iam entregar dinheiro.
-Doutor
Ex-diretor de presídio, Lemuel Santos de Santana era o ‘Doutor’ da quadrilha: encarregado de conseguir advogados.
-Geladeira
Sargento Emerson Vagner Costa Sousa combinou com traficante a entrega de escopeta. A arma seria deixada em uma geladeira. Ao pegar, o PM colocou R$ 300 no congelador.
Um ano de investigação
Escutas autorizadas pela Justiça mostram rotina de extorsões praticadas pelos policiais quando propinas atrasavam ou não eram pagas. Para compensar, houve episódio em que o PM se comprometeu a depôr na Justiça a favor do bandido preso. Os militares foram presos em Bangu 8.
O secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, espera pela expulsão sumária da polícia dos envolvidos em 30 dias. O comandante do 15º BPM, tenente-coronel Claudio Lucas Lima, foi exonerado.
Glossário
-Feitiço
Traficantes e policiais usam códigos e alguns chamam a atenção, como o Feitiço — usado na mistura de lidocaína e cafeína à cocaína para aumentar lucros.
Sintonia é como os PMs dizem que o agente está do lado do traficante e, Vento, é como a propina é chamada nas conversas. As Patamos são barcas.
-Cemitério
Locais para pagar as propinas. O sargento Wagner Teixeira Gonçalves, ao falar com o traficante Léo, diz que está a caminho do pé-junto (Cemitério) onde irá receber o "arrego". A ousadia era tanta, que até no destacamento bandidos iam entregar dinheiro.
-Doutor
Ex-diretor de presídio, Lemuel Santos de Santana era o ‘Doutor’ da quadrilha: encarregado de conseguir advogados.
-Geladeira
Sargento Emerson Vagner Costa Sousa combinou com traficante a entrega de escopeta. A arma seria deixada em uma geladeira. Ao pegar, o PM colocou R$ 300 no congelador.
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