Rio -  Pi é um menino muito corajoso. Mas sua valentia não bastou para convencer Jaguar. Impressionado com a repercussão do longa ‘As Aventuras de Pi’, o cartunista e colunista de O DIA detona a produção de Ang Lee, que concorre a 11 categorias no Oscar, incluindo Melhor Filme. Jaguar reacende a polêmica sobre o plágio, já que a versão das telonas é baseada no premiado livro ‘A Vida de Pi’, do canadense Yann Martel que, por sua vez, foi acusado de plagiar ‘Max e os Felinos’, do brasileiro Moacyr Scliar (1937-2011).
História seria um plágio | Foto: Divulgação
História seria um plágio | Foto: Divulgação
“Um plágio muito do safado. Ou ‘inspiração’, que no caso dá na mesma... Às vezes o plágio faz mais sucesso que a obra original, e aí a coisa se inverte: o original é tachado de plágio... A safadeza começa pelo cartaz do filme, copiado do volume editado pela L&PM”, escreveu o cartunista em sua coluna de sábado.
A versão cinematográfica que conta a história de um garoto indiano num barco à deriva com um tigre, depois de perder a família em um naufrágio a caminho do Canadá, agrada críticos especializados como Rubens Ewald Filho, que dá sua opinião sobre a questão. “Acho importante o Jaguar levantar a discussão e tiro meu chapéu para o Scliar. A ideia original é dele. Mas não usaria o termo plágio e sim inspiração. E quem pode dizer de onde ela vem?”, questiona Rubens, que não acredita na força do filme. “Disputar com ‘Argo’ e ‘Amor’ não é fácil”.
De fato, Yann Martel assumiu, só depois de muito bafafá na mídia, ter se inspirado em uma resenha negativa sobre a obra de Scliar para escrever a sua história. Elegante, Scliar se pronunciou na época (2002), dizendo que não levou a questão à frente legalmente por causa da ‘trabalheira’ que isso ia dar. Mas que teria ficado chateado com a maneira como o episódio aconteceu: “Ele disse que ia aproveitar uma boa ideia estragada por um autor brasileiro”.
A verdade é que, muito mais profundo, o livro do autor gaúcho faz uma alegoria ao nazismo em plena época da ditadura (foi publicado em 1981), mostrando um personagem a caminho do Brasil, fugindo da Alemanha e sendo ameaçado num bote por um jaguar no meio do oceano. Ivan Pinheiro Machado, editor da L&PM e autor da capa do livro de Scliar, minimiza o impasse. “De igual, as histórias só têm um menino e uma fera dentro de uma embarcação. Essa metáfora já foi feita várias vezes, inclusive por Balzac (famoso romancista francês), no conto ‘Uma Paixão no Deserto’, de 1832. É difícil considerar esse episódio um plágio. Mas como idealizador da capa do livro, acredito, sim, que eles podem ter se inspirado nela para produzir o material de divulgação do filme”, opina Ivan.
O ator, crítico e cineasta José Wilker também viu o longa e não é muito entusiasta da produção. “O próprio canadense admitiu que deve sua inspiração ao Moacyr. Então o filme de Ang Lee também deve. Acho o uso do 3D totalmente dispensável, medíocre. Gosto do filme até o naufrágio (que acontece logo no início), depois, só tolero”, ironiza. “Ele pode levar o Oscar em alguma categoria técnica, mas se faturar outra coisa, vai me surpreender”, diz.