Rio -  ‘Queixo-me às rosas/ Mas que bobagem/ As rosas não falam/ Simplesmente as rosas exalam/ O perfume que roubam de ti’. Os versos da canção estão entre os mais famosos da magistral obra de seu autor, o sambista Cartola, que tem sua história contada agora em ‘Divino Cartola — Uma Vida em Verde e Rosa’ (ed. Casa da Palavra, 208 págs., R$ 80), de Denilson Monteiro, em edição bilíngue, em francês e português.
Coração verde e branco | Foto: Divulgação
Coração verde e branco | Foto: Divulgação
Repleta de momentos difíceis, a vida de Agenor de Oliveira era descrita pelo próprio como “um filme de mocinho”: “Acabei vencendo quase no final”, dizia ele. O livro — que será lançado dia 6 de fevereiro, centenário de nascimento de Dona Zica, mulher do artista, na Livraria Cultura do Centro — mostra que ele, nascido em 1908, só encontraria algum conforto material ao lançar seu primeiro LP, em 1974, quando passou a ter muitas propostas de shows — ‘Divino Cartola’ traz encartado CD com a última apresentação do artista a ter sido gravada, de 1978.
“Ele começou a ganhar alguma coisa nos anos 1960, na época do Zicartola (casa de shows que administrava com Dona Zica), mas não muito”, lembra o jornalista Sérgio Cabral, que foi amigo de Cartola e escreve a apresentação do livro. “Eram noites memoráveis. Tom Jobim, Dorival Caymmi, Rubem Braga, Aracy de Almeida: todo mundo ia lá”.
Entre os momentos dramáticos da biografia do fundador da escola de samba Mangueira estão os nove anos que passou no ostracismo, morando em uma favela no Caju com uma mulher que só o fez sofrer. “Foi muito traumática a passagem com a Donária, ele não gostava de falar sobre”, revela Denilson.
A vida amorosa de Cartola, aliás, chamou a atenção do autor. “Eu tinha a imagem daquele senhor com aquela sabedoria, aquele jeito calmo, me surpreendi com a fase boêmia, pulando cerca quando casado com a Deolinda (primeira mulher de Cartola). Ele era muito namorador. É interessante perceber como a responsabilidade foi chegando à vida dele”.
Chegou através de Dona Zica, que ele conhecia desde criança e a quem reencontrou, já viúva, nos anos 50, na casa de seu amigo Carlos Cachaça, um dos poucos a visitá-lo no Caju. “Ela salvou o Cartola. Conseguiu levantá-lo, e ele sossegou, virou um homem de família”, ri Sérgio Cabral.
O final da história, como definiu Agenor (que, a certa altura da vida, adotou o ‘Antenor’ de sua certidão), foi feliz: o gênio admirado por ícones como Dorival Caymmi e Ary Barroso, morto em 1980, deixou uma obra que até hoje encanta ouvidos e corações. “Impressiona que esse homem tão simples, com pouco estudo, consiga passar uma mensagem que nos deixa absortos. É um dom mesmo”, define Denilson.