Eduardo Paes: 'Eu sou prefeito do Rio, e não estou aqui para missão partidária'
Rio -
O prefeito Eduardo Paes (PMDB) é todo prosa ao dizer que “o Rio está
dando um show de bola” em sua gestão. Com mais de 50% das intenções de
voto e sustentado por 20 partidos, ele se submeteu ontem à sabatina do
DIA na condição privilegiada de candidato que, por força do cargo, pode
mostrar serviço. A linha-mestra do discurso é repetir que o ex-guru
Cesar Maia deixou muito por fazer e que, nos últimos quatro anos, a
cidade recuperou a autoestima. Jura que “não há hipótese” de deixar a
prefeitura, se for reeleito, para se candidatar ao governo estadual em
2014 e garante que as obras da Copa e Olimpíadas estão no prazo. Já para
a inacabada Cidade da Música, a disposição não foi a mesma. “Não perdi
meu tempo, confesso que não consegui ter na minha alma, no meu coração
de homem público, que a coisa mais importante seria inaugurar a Cidade
da Música.”
O DIA — Prefeito, por que o senhor quer continuar a governar a cidade?
EDUARDO PAES — Voltando ao processo eleitoral que eu vivi em 2008, tenho muita convicção de que o Rio melhorou muito. A gente vivia numa cidade que olhava permanentemente para o passado, uma cidade que se perdeu em lamúrias permanentes sobre aquilo que tinha deixado de ser, com a autoestima lá embaixo. Sou fruto de uma geração que não conheceu esse Rio Cidade Maravilhosa. Uma geração que fugia para São Paulo, uma geração com medo da violência. A gente hoje vive um outro momento. Essa cidade voltou a ter projeto, recuperou sua autoestima, voltou a olhar para frente. Essas coisas não são à toa. Elas aconteceram porque a gente buscou ao longo desses últimos anos trabalhar em parceria, integrar a cidade, organizar a gestão da prefeitura. Eu sei que não está tudo resolvido, sei que tem muita coisa ainda para fazer, mas avançamos muito. Então, gostaria muito de continuar, nesses próximos quatro anos, cuidando da cidade em que eu nasci, cresci e crio meus filhos.
Seu antecessor, Cesar Maia, teve quatro vitórias consecutivas — incluindo a de seu aliado Luiz Paulo Conde — e ficou 12 anos no cargo. A crítica política que se faz a ele é a de ter usado os partidos em um estilo personalista e pouco ideológico. Ele era acusado de ser autoritário, de pouco diálogo e muito pragmático, que é a crítica também que hoje se faz ao seu estilo político. Esse pragmatismo não é negativo para o amadurecimento democrático?
Bom, estou aqui querendo crer que você não está me chamando de autoritário... Objetivamente, senti muito essa coisa da prioridade para o Rio de Janeiro. Eu acho que governar uma cidade exige da gente soluções objetivas. Não há ideologia no trânsito, não há ideologia nos desafios de mobilidade da cidade, não há ideologia no desenvolvimento econômico da cidade. O que há são soluções objetivas. Eu sou, talvez, o prefeito na história dessa cidade que mais dialoga com a cidade. Eu não me isolei num computador, não fiquei conversando com as pessoas por e-mail. Eu leio permanentemente a imprensa, presto atenção naquilo que O DIA e os outros jornais escrevem; me incomodo com as críticas da imprensa; não me nego a voltar atrás. Quantas vezes desde que eu virei prefeito eu recuei em decisões que a gente tomou por uma crítica que surgisse, que a gente percebesse que tinha erro? Então, eu governo dialogando com muitos partidos. A gente tem uma aliança grande. Dialogo com a Câmara de Vereadores. Não nego a política, a necessidade de dialogar com o Parlamento. Quero dizer, a gente dialoga com toda a cidade. O Rio é uma cidade muito diversa, e eu acho que tenho sido um prefeito que dialoga com a cidade inteira. Agora, de fato, sob o ponto de vista partidário, eu me preocupo menos com a causa do PMDB nacional e mais com a minha cidade. Eu sou prefeito do Rio, e não estou aqui para missão partidária nenhuma.
Com relação à aliança de 20 partidos que o apoia, a primeira crítica que seus adversários fazem é dizer que o senhor fica “refém dessa coligação”, querendo dizer que teria que “lotear” o governo. Como manter o controle do governo com uma aliança tão grande?
Em 2008, no segundo turno, eu tinha 17 partidos na minha aliança. Então, em 2008, até poderia ter alguma desconfiança. Depois de eu já ter sido prefeito quatro anos nessa cidade com a aliança que eu tive e sem ter loteado (o governo), por que eu haveria de lotear agora? Os partidos me conhecem e sabem que eu não loteio nada. Fiz um governo que tem quadros técnicos. Na Educação, tem Cláudia Costin, na Saúde é o Hans (Dohmann). Na Administração, um ex-ministro (Paulo Jobim). E por aí vai. E tem quadros políticos qualificados, também. O Partido dos Trabalhadores está lá fazendo a gestão da Secretaria de Habitação, deputado (federal) Jorge Bittar (PT). O meu chefe da Casa Civil é um deputado federal, Pedro Paulo (PMDB). Quer dizer, a gente trabalhou com quadros técnicos. Por isso, eu não loteei o meu governo. Então, essa suspeita, essa desconfiança, valia em 2008. Mas, se eu não loteei lá, por que iria lotear agora? Eu já provei ser um gestor responsável. Não há uma denúncia em relação ao meu governo. Em geral, governo loteado é governo cheio de escândalo. E o meu governo não é um governo cheio de escândalo. Certas suspeitas eu não topo mais levar pra casa. Em 2008, eu me explicava. Agora, não. Agora, olha o meu governo.
O senhor fez várias intervenções no trânsito e no transporte ao longo desses quatro anos. Mas um setor não ficou bem resolvido que é o transporte por vans. A prefeitura fez algumas licitações, poucas. Começou fazendo uma licitação por cooperativa e agora, no fim do governo, decidiu mudar para autônomos. O senhor mudou por pressão da eleição?
Esse é um grande desafio. O que é o modelo adequado? O que capitais como São Paulo, BH, que organizaram seus sistemas de vans, fizeram? Todos licitaram por cooperativa. Por quê? Porque você não fica lidando com os indivíduos. Então, sob o ponto de vista técnico, o mais correto é a licitação por cooperativa. Por isso, fui nessa direção. Inclusive, assumi esse compromisso durante o processo eleitoral. Eu não mudei, não tomei a decisão de não avançar por cooperativa às vésperas da eleição. Essa decisão foi tomada no ano passado. E muito por pressões que surgiram da própria imprensa, denúncias que surgiram no jornal O DIA e em outros. E teve um determinado momento em que eu constatei de fato que era inviável fazer isso por cooperativa porque estaria legitimando alguns desses delinquentes que existem no processo. Não acho que todo mundo de cooperativa deva ser delinquente, mas tem de fato delinquentes ali. Então, por isso eu mudei. Não foi às vésperas da eleição, não. Então, de novo, mostra como eu não tenho dificuldade de mudar. Tanto que a gente fez licitações já individuais e entregamos algumas. Foi um processo em que começamos de um jeito, voltamos atrás a partir de críticas, de comentários, opiniões. Então, foi por isso que eu mudei. Não foi por causa de eleição. Foi porque, de fato, a partir de críticas de vocês, inclusive do DIA, tive essa certeza. De novo, não me importo de reconhecer um erro. Pior é quando você insiste em um erro. Outra coisa é o seguinte: hoje, o Rio tem 6 mil licenças individuais concedidas por mim. Eu nunca dei uma licença para cooperativa. Por que será que tem cooperativa? Porque as pessoas se unem em cooperativas. Mas como se unem? São forçadas a se unir ou se unem porque querem? E se a licença é individual por que elas são forçadas? Então, tem obviamente, uma coisa que a gente tem que entender. Às vezes esse discurso fica numa hipocrisia, numa demagogia, quer dizer, fazer a licitação individual também não garante que amanhã não vá haver cooperativa. Agora, se tem um sujeito que vai lá e bota uma arma na cabeça de um motorista de van que está ali trabalhando e ele é acuado pra fazer parte de uma cooperativa, é um caso de polícia. Nós vamos fazer licitação individual. Agora, licitação individual sozinha não resolve esse problema. Será importante manter essa ação policial para enfrentá-lo.
O que resolve?
Nesse caso, a licitação individual é o caminho para você dificultar a ação dos delinquentes da cooperativa. Esse é o melhor caminho, e eu estou convencido disso, tanto que mudei no ano passado e não às vésperas da eleição. Aliás, esse negócio de van, como eles são usados como massa de manobra. Em 2008, todos os motoristas de vans recebiam panfleto dizendo que eu ia varrer as vans da cidade. E agora, a oposição volta a fazer esse joguinho de quinta categoria. Então, de novo, é mais um caso, eu sou prefeito da cidade há quatro anos, todos têm licença individual renovada pelo prefeito da cidade, e eu só quero é consolidar o processo através de uma licitação individual.
O candidato do DEM, Rodrigo Maia diz que o senhor mente ao negar que exista aprovação automática nas escolas do Rio. Existe ou não?
O que o Cesar Maia fez em 2007? Ele teve uma tragédia de gestão no ensino público. Errou muito. As notas de Português, Matemática, as notas de prova para o Ideb, da Prova Brasil, foram lá para o fundo do buraco, e o Ideb, que é esse índice que se divulga a cada dois anos, especialmente em ano eleitoral, o Cesar Maia viu em 2008 que ele ia tomar uma paulada porque as notas foram para o fundo do poço, fracasso na gestão de ensino dele. O que ele fez para subir o Ideb? Nota de porcaria, ensino de porcaria, aprova todo mundo. Foi ali que ele criou a aprovação automática, que não tinha nada a ver com progressão continuada, com sistema de ciclos, nada. Ele mandou passar todo mundo por decreto e instituiu no Rio de Janeiro a desesperança oficial. A criança que estuda e aprende passa de ano, e a que não estuda e não aprende passa também. Foi isso que a gente encontrou na Educação. Então, a primeira coisa que eu fiz: assinei minha posse no Palácio e fiz um decreto revogando o decreto dele da aprovação automática. É óbvio que a gente acabou com a aprovação automática, com aquele sistema. Não há segmento na prefeitura que tenha meta de aprovação ou reprovação. O que tem é uma orientação pedagógica, quando as crianças são menores, e orientação pedagógica que vale na escola pública e na escola particular onde meus filhos estudam. Isso é um método educacional. Nessa fase, você repete menos. Basta olhar os números de reprovação que a prefeitura tem. Infelizmente, ainda estão grandes, gostaria que fossem menores. Mas fica uma discussão meio neurótica: o Rodrigo permanentemente querendo negar o que o pai dele fez. A gente acabou com a aprovação automática, as pessoas sabem disso, sim, reconhecem isso. Ele está inventando história.
Um dos mais caros equipamentos de cultura do Rio é a Cidade da Música, projeto da gestão Cesar Maia. Ela ficou quatro anos fechada porque o senhor decidiu não terminá-la. O carioca vai passar mais quatro anos com esse equipamento abandonado ou se o senhor vai inaugurá-la?
Eu aceito todas as culpas do mundo, mas o sujeito demora oito anos fazendo o negócio, inaugura sem estar pronto... O negócio começa com R$ 80 milhões e termina com R$ 600 milhões, 550, sei lá... Eu entro na prefeitura ... cheio de escândalos. Aí, vocês querem o quê? Que eu chegue, pegue a obra que não está pronta....Eu devo ter errado na comunicação, aí, para essa afirmação de que eu parei durante quatro anos. Não é verdade. O sujeito inaugurou uma coisa sem estar pronta. A grande sala era a única coisa pronta e, mesmo assim, não estava pronta, estava montada. A primeira coisa que eu fiz foi uma auditoria. Faltavam cento e poucos milhões para terminar. Isso demorou um ano. No fim de 2009, a gente chegou a essa conclusão e, no início de 2010, a gente retomou a obra. Então, de fato, a obra ficou pronta esse ano, em abril, maio... Eu tenho que confessar que não foi, assim, a coisa que eu achasse a mais importante para o meu governo terminar a Cidade da Música. Eu tinha 70 Clínicas da Família para fazer, tinha TransOeste, tinha BRT, tinha que acabar com o Aterro de Gramacho, tinha que fazer o Parque Madureira, tinha que fazer o Bilhete Único, tinha que fazer o Plano Diretor... Tinha que fazer um monte de coisa nessa cidade, e eu confesso, não perdi meu tempo, confesso que não consegui ter na minha alma, no meu coração de homem público, que a coisa mais importante seria inaugurar a Cidade da Música. Não tenho problema nenhum em inaugurar a Cidade da Música. A gente está fazendo licitação, e ela será aberta. Nós vamos inaugurar a Cidade da Música. Acho aquilo ali inoportuno, inadequado, mas o povo gastou dinheiro ali, e nós vamos inaugurar. Até o fim desse ano já deve ser inaugurada. Toda vez que eu olho para aqueles R$ 600 milhões gastos ali, eu penso que eu poderia fazer... Uma Clínica da Família são uns R$ 3 milhões — dava para fazer umas 200 novas Clínicas da Família, uns cinco Hospitais Pedro II.
Não daria para fazer essas Clínicas da Família com o dinheiro da derrubada da Perimetral, ou pelo fato de ele ser carimbado o senhor só pode aplicar na derrubada mesmo?
Exatamente. Olha só, primeiro, acho esquisitíssimo essa história de o sujeito ficar abraçando viaduto (provocação ao candidato do PSDB Otavio Leite, que defende a manutenção da Perimetral e já fez manifestação ‘abraçando’ um dos pilares). A pessoa tem que entender: o projeto de revitalização da Zona Portuária não custa um tostão para a prefeitura. Não tem um tostão de ISS e de IPTU sendo gasto. É a maior PPP (Parceria Público-Privado) do Brasil, de R$ 8 bilhões. Se não derruba a Perimetral, não tem valorização imobiliária. Se não tem valorização imobiliária, não tem ninguém querendo comprar esses títulos. Aí não tem dinheiro. E esse dinheiro só pode ser gasto ali.
Caso o PMDB não tenha um candidato com chances de vencer em 2014 para o governo, o sr. deixaria a prefeitura para se candidatar a governador?
Eu tenho uma eleição no dia 7 de outubro e gostaria muito de vencer. Eu nunca trabalho por hipótese, mas nesse caso, vou trabalhar e dizer: não há hipótese. Primeiro que eu adoro ser prefeito do Rio. E depois porque o meu partido tem um super candidato que é o Pezão. Ele é um quadro qualificadíssimo e muito popular. Pode não ser o cara mais conhecido do mundo porque nunca disputou eleição majoritária. Mas tenho certeza de que ele terá um bom desempenho, será o candidato do PMDB em 2014, ponto. Então, não há hipótese, não tem chance: pode vir o Papa, a Dilma, o Lula... se eu for reeleito, claro, vou, sim, entregar a bandeira para o próximo prefeito. Eu quero cuidar da minha cidade.
O COI fez críticas sobre os custos dos Jogos Olímpicos no Rio em 2016: que até agora o valor não está definido. Existe um valor de quando o Rio apresentou uma proposta, que era uma estimativa inicial. Por que o Rio não tem ainda uma estimativa final?
Primeira coisa: eu não respondo por todos os custos das Olimpíadas. Respondo pelos custos da prefeitura. O que eu posso dizer é que, no caso da prefeitura, já devem ter 90% dos custos já definidos. A gente sabe quanto custa a TransOeste, a TransCarioca, a TransOlímpica, o Parque olímpico, a revitalização da Zona Portuária, da Praça da Bandeira. Tudo isso que é da prefeitura a gente sabe, então é público. Inclusive, com licitações e obras em andamento. O que não dá para fechar completamente é isso. Estou projetando ainda o estádio de natação, que vai ser recurso federal e a prefeitura vai executar. Estou projetando o negócio de basquete... Então, não posso dar custo de uma coisa que está sendo projetada ainda. A gente tem esse orçamento e, aí, vou fazer uma provocação aqui, irresistível: a gente está muito no prazo para as Olimpíadas. Está muito organizado isso. A Vila Olímpica está saindo, dinheiro privado. Parque Olímpico está saindo, dinheiro privado. As Trans todas andando... Quer dizer, está tudo andando, tudo no prazo.
Mais ou menos. O Velódromo, por exemplo, não se sabe ainda o que vai ser feito. O próprio Parque da Natação ainda vai ser construído, ainda não tem o projeto executivo...
Mas isso não quer dizer que esteja fora do prazo. O que eu estou dizendo que está dentro do prazo: tudo aquilo que demora mais de dois anos para fazer já está sendo executado. “First things first”, usando uma expressão em inglês, “primeiras coisas antes”. Então, prioridades, antes. Aquilo que demorava mais tempo a gente começou antes. O que demora menos tempo a gente vai projetando. Então, estamos no prazo. Não estar definido ainda o Parque de Natação não significa que esteja atrasado o nosso cronograma. A gente deve iniciar isso só em meados do ano que vem, e não significa atraso. Até porque é uma estrutura temporária. Não quero fazer essas coisas com rapidez. Por exemplo, na estrutura temporária, a gente está estudando o que a gente chama de arquitetura nômade. Será que a gente vai construir um equipamento temporário, usar 15 dias e destruir, depois? Será que esse equipamento não pode ser utilizado depois pra virar cinco escolas ou cinco bibliotecas em comunidades? É isso que a gente está fazendo. Te afirmo: está tudo dentro do prazo. Assim, desculpa, modéstia à parte, a gente tá dando um show de bola na Olimpíada, na organização dela.
Agradecemos a sua presença e pedimos que faça suas considerações finais, por favor.
Quero agradecer ao jornal O DIA a oportunidade. No processo eleitoral, a gente tem que debater, na política, as ações e aquilo que a gente tem de propostas. Foi isso que eu busquei fazer ao longo do processo eleitoral. A gente fez muito pela cidade. Não estão todos os problemas resolvidos, mas tenho muito orgulho do que a gente construiu nesses quatro anos. Muito obrigado.
Sabatina com Aline Freire, Aziz Filho, Daniele Maia, Elaine Gaglianone, Fernando Molica e Rozane Monteiro
Foto: Fernando Souza / Agência O Dia
EDUARDO PAES — Voltando ao processo eleitoral que eu vivi em 2008, tenho muita convicção de que o Rio melhorou muito. A gente vivia numa cidade que olhava permanentemente para o passado, uma cidade que se perdeu em lamúrias permanentes sobre aquilo que tinha deixado de ser, com a autoestima lá embaixo. Sou fruto de uma geração que não conheceu esse Rio Cidade Maravilhosa. Uma geração que fugia para São Paulo, uma geração com medo da violência. A gente hoje vive um outro momento. Essa cidade voltou a ter projeto, recuperou sua autoestima, voltou a olhar para frente. Essas coisas não são à toa. Elas aconteceram porque a gente buscou ao longo desses últimos anos trabalhar em parceria, integrar a cidade, organizar a gestão da prefeitura. Eu sei que não está tudo resolvido, sei que tem muita coisa ainda para fazer, mas avançamos muito. Então, gostaria muito de continuar, nesses próximos quatro anos, cuidando da cidade em que eu nasci, cresci e crio meus filhos.
Seu antecessor, Cesar Maia, teve quatro vitórias consecutivas — incluindo a de seu aliado Luiz Paulo Conde — e ficou 12 anos no cargo. A crítica política que se faz a ele é a de ter usado os partidos em um estilo personalista e pouco ideológico. Ele era acusado de ser autoritário, de pouco diálogo e muito pragmático, que é a crítica também que hoje se faz ao seu estilo político. Esse pragmatismo não é negativo para o amadurecimento democrático?
Bom, estou aqui querendo crer que você não está me chamando de autoritário... Objetivamente, senti muito essa coisa da prioridade para o Rio de Janeiro. Eu acho que governar uma cidade exige da gente soluções objetivas. Não há ideologia no trânsito, não há ideologia nos desafios de mobilidade da cidade, não há ideologia no desenvolvimento econômico da cidade. O que há são soluções objetivas. Eu sou, talvez, o prefeito na história dessa cidade que mais dialoga com a cidade. Eu não me isolei num computador, não fiquei conversando com as pessoas por e-mail. Eu leio permanentemente a imprensa, presto atenção naquilo que O DIA e os outros jornais escrevem; me incomodo com as críticas da imprensa; não me nego a voltar atrás. Quantas vezes desde que eu virei prefeito eu recuei em decisões que a gente tomou por uma crítica que surgisse, que a gente percebesse que tinha erro? Então, eu governo dialogando com muitos partidos. A gente tem uma aliança grande. Dialogo com a Câmara de Vereadores. Não nego a política, a necessidade de dialogar com o Parlamento. Quero dizer, a gente dialoga com toda a cidade. O Rio é uma cidade muito diversa, e eu acho que tenho sido um prefeito que dialoga com a cidade inteira. Agora, de fato, sob o ponto de vista partidário, eu me preocupo menos com a causa do PMDB nacional e mais com a minha cidade. Eu sou prefeito do Rio, e não estou aqui para missão partidária nenhuma.
Com relação à aliança de 20 partidos que o apoia, a primeira crítica que seus adversários fazem é dizer que o senhor fica “refém dessa coligação”, querendo dizer que teria que “lotear” o governo. Como manter o controle do governo com uma aliança tão grande?
Em 2008, no segundo turno, eu tinha 17 partidos na minha aliança. Então, em 2008, até poderia ter alguma desconfiança. Depois de eu já ter sido prefeito quatro anos nessa cidade com a aliança que eu tive e sem ter loteado (o governo), por que eu haveria de lotear agora? Os partidos me conhecem e sabem que eu não loteio nada. Fiz um governo que tem quadros técnicos. Na Educação, tem Cláudia Costin, na Saúde é o Hans (Dohmann). Na Administração, um ex-ministro (Paulo Jobim). E por aí vai. E tem quadros políticos qualificados, também. O Partido dos Trabalhadores está lá fazendo a gestão da Secretaria de Habitação, deputado (federal) Jorge Bittar (PT). O meu chefe da Casa Civil é um deputado federal, Pedro Paulo (PMDB). Quer dizer, a gente trabalhou com quadros técnicos. Por isso, eu não loteei o meu governo. Então, essa suspeita, essa desconfiança, valia em 2008. Mas, se eu não loteei lá, por que iria lotear agora? Eu já provei ser um gestor responsável. Não há uma denúncia em relação ao meu governo. Em geral, governo loteado é governo cheio de escândalo. E o meu governo não é um governo cheio de escândalo. Certas suspeitas eu não topo mais levar pra casa. Em 2008, eu me explicava. Agora, não. Agora, olha o meu governo.
O senhor fez várias intervenções no trânsito e no transporte ao longo desses quatro anos. Mas um setor não ficou bem resolvido que é o transporte por vans. A prefeitura fez algumas licitações, poucas. Começou fazendo uma licitação por cooperativa e agora, no fim do governo, decidiu mudar para autônomos. O senhor mudou por pressão da eleição?
Esse é um grande desafio. O que é o modelo adequado? O que capitais como São Paulo, BH, que organizaram seus sistemas de vans, fizeram? Todos licitaram por cooperativa. Por quê? Porque você não fica lidando com os indivíduos. Então, sob o ponto de vista técnico, o mais correto é a licitação por cooperativa. Por isso, fui nessa direção. Inclusive, assumi esse compromisso durante o processo eleitoral. Eu não mudei, não tomei a decisão de não avançar por cooperativa às vésperas da eleição. Essa decisão foi tomada no ano passado. E muito por pressões que surgiram da própria imprensa, denúncias que surgiram no jornal O DIA e em outros. E teve um determinado momento em que eu constatei de fato que era inviável fazer isso por cooperativa porque estaria legitimando alguns desses delinquentes que existem no processo. Não acho que todo mundo de cooperativa deva ser delinquente, mas tem de fato delinquentes ali. Então, por isso eu mudei. Não foi às vésperas da eleição, não. Então, de novo, mostra como eu não tenho dificuldade de mudar. Tanto que a gente fez licitações já individuais e entregamos algumas. Foi um processo em que começamos de um jeito, voltamos atrás a partir de críticas, de comentários, opiniões. Então, foi por isso que eu mudei. Não foi por causa de eleição. Foi porque, de fato, a partir de críticas de vocês, inclusive do DIA, tive essa certeza. De novo, não me importo de reconhecer um erro. Pior é quando você insiste em um erro. Outra coisa é o seguinte: hoje, o Rio tem 6 mil licenças individuais concedidas por mim. Eu nunca dei uma licença para cooperativa. Por que será que tem cooperativa? Porque as pessoas se unem em cooperativas. Mas como se unem? São forçadas a se unir ou se unem porque querem? E se a licença é individual por que elas são forçadas? Então, tem obviamente, uma coisa que a gente tem que entender. Às vezes esse discurso fica numa hipocrisia, numa demagogia, quer dizer, fazer a licitação individual também não garante que amanhã não vá haver cooperativa. Agora, se tem um sujeito que vai lá e bota uma arma na cabeça de um motorista de van que está ali trabalhando e ele é acuado pra fazer parte de uma cooperativa, é um caso de polícia. Nós vamos fazer licitação individual. Agora, licitação individual sozinha não resolve esse problema. Será importante manter essa ação policial para enfrentá-lo.
O que resolve?
Nesse caso, a licitação individual é o caminho para você dificultar a ação dos delinquentes da cooperativa. Esse é o melhor caminho, e eu estou convencido disso, tanto que mudei no ano passado e não às vésperas da eleição. Aliás, esse negócio de van, como eles são usados como massa de manobra. Em 2008, todos os motoristas de vans recebiam panfleto dizendo que eu ia varrer as vans da cidade. E agora, a oposição volta a fazer esse joguinho de quinta categoria. Então, de novo, é mais um caso, eu sou prefeito da cidade há quatro anos, todos têm licença individual renovada pelo prefeito da cidade, e eu só quero é consolidar o processo através de uma licitação individual.
O candidato do DEM, Rodrigo Maia diz que o senhor mente ao negar que exista aprovação automática nas escolas do Rio. Existe ou não?
O que o Cesar Maia fez em 2007? Ele teve uma tragédia de gestão no ensino público. Errou muito. As notas de Português, Matemática, as notas de prova para o Ideb, da Prova Brasil, foram lá para o fundo do buraco, e o Ideb, que é esse índice que se divulga a cada dois anos, especialmente em ano eleitoral, o Cesar Maia viu em 2008 que ele ia tomar uma paulada porque as notas foram para o fundo do poço, fracasso na gestão de ensino dele. O que ele fez para subir o Ideb? Nota de porcaria, ensino de porcaria, aprova todo mundo. Foi ali que ele criou a aprovação automática, que não tinha nada a ver com progressão continuada, com sistema de ciclos, nada. Ele mandou passar todo mundo por decreto e instituiu no Rio de Janeiro a desesperança oficial. A criança que estuda e aprende passa de ano, e a que não estuda e não aprende passa também. Foi isso que a gente encontrou na Educação. Então, a primeira coisa que eu fiz: assinei minha posse no Palácio e fiz um decreto revogando o decreto dele da aprovação automática. É óbvio que a gente acabou com a aprovação automática, com aquele sistema. Não há segmento na prefeitura que tenha meta de aprovação ou reprovação. O que tem é uma orientação pedagógica, quando as crianças são menores, e orientação pedagógica que vale na escola pública e na escola particular onde meus filhos estudam. Isso é um método educacional. Nessa fase, você repete menos. Basta olhar os números de reprovação que a prefeitura tem. Infelizmente, ainda estão grandes, gostaria que fossem menores. Mas fica uma discussão meio neurótica: o Rodrigo permanentemente querendo negar o que o pai dele fez. A gente acabou com a aprovação automática, as pessoas sabem disso, sim, reconhecem isso. Ele está inventando história.
Um dos mais caros equipamentos de cultura do Rio é a Cidade da Música, projeto da gestão Cesar Maia. Ela ficou quatro anos fechada porque o senhor decidiu não terminá-la. O carioca vai passar mais quatro anos com esse equipamento abandonado ou se o senhor vai inaugurá-la?
Eu aceito todas as culpas do mundo, mas o sujeito demora oito anos fazendo o negócio, inaugura sem estar pronto... O negócio começa com R$ 80 milhões e termina com R$ 600 milhões, 550, sei lá... Eu entro na prefeitura ... cheio de escândalos. Aí, vocês querem o quê? Que eu chegue, pegue a obra que não está pronta....Eu devo ter errado na comunicação, aí, para essa afirmação de que eu parei durante quatro anos. Não é verdade. O sujeito inaugurou uma coisa sem estar pronta. A grande sala era a única coisa pronta e, mesmo assim, não estava pronta, estava montada. A primeira coisa que eu fiz foi uma auditoria. Faltavam cento e poucos milhões para terminar. Isso demorou um ano. No fim de 2009, a gente chegou a essa conclusão e, no início de 2010, a gente retomou a obra. Então, de fato, a obra ficou pronta esse ano, em abril, maio... Eu tenho que confessar que não foi, assim, a coisa que eu achasse a mais importante para o meu governo terminar a Cidade da Música. Eu tinha 70 Clínicas da Família para fazer, tinha TransOeste, tinha BRT, tinha que acabar com o Aterro de Gramacho, tinha que fazer o Parque Madureira, tinha que fazer o Bilhete Único, tinha que fazer o Plano Diretor... Tinha que fazer um monte de coisa nessa cidade, e eu confesso, não perdi meu tempo, confesso que não consegui ter na minha alma, no meu coração de homem público, que a coisa mais importante seria inaugurar a Cidade da Música. Não tenho problema nenhum em inaugurar a Cidade da Música. A gente está fazendo licitação, e ela será aberta. Nós vamos inaugurar a Cidade da Música. Acho aquilo ali inoportuno, inadequado, mas o povo gastou dinheiro ali, e nós vamos inaugurar. Até o fim desse ano já deve ser inaugurada. Toda vez que eu olho para aqueles R$ 600 milhões gastos ali, eu penso que eu poderia fazer... Uma Clínica da Família são uns R$ 3 milhões — dava para fazer umas 200 novas Clínicas da Família, uns cinco Hospitais Pedro II.
Não daria para fazer essas Clínicas da Família com o dinheiro da derrubada da Perimetral, ou pelo fato de ele ser carimbado o senhor só pode aplicar na derrubada mesmo?
Exatamente. Olha só, primeiro, acho esquisitíssimo essa história de o sujeito ficar abraçando viaduto (provocação ao candidato do PSDB Otavio Leite, que defende a manutenção da Perimetral e já fez manifestação ‘abraçando’ um dos pilares). A pessoa tem que entender: o projeto de revitalização da Zona Portuária não custa um tostão para a prefeitura. Não tem um tostão de ISS e de IPTU sendo gasto. É a maior PPP (Parceria Público-Privado) do Brasil, de R$ 8 bilhões. Se não derruba a Perimetral, não tem valorização imobiliária. Se não tem valorização imobiliária, não tem ninguém querendo comprar esses títulos. Aí não tem dinheiro. E esse dinheiro só pode ser gasto ali.
Caso o PMDB não tenha um candidato com chances de vencer em 2014 para o governo, o sr. deixaria a prefeitura para se candidatar a governador?
Eu tenho uma eleição no dia 7 de outubro e gostaria muito de vencer. Eu nunca trabalho por hipótese, mas nesse caso, vou trabalhar e dizer: não há hipótese. Primeiro que eu adoro ser prefeito do Rio. E depois porque o meu partido tem um super candidato que é o Pezão. Ele é um quadro qualificadíssimo e muito popular. Pode não ser o cara mais conhecido do mundo porque nunca disputou eleição majoritária. Mas tenho certeza de que ele terá um bom desempenho, será o candidato do PMDB em 2014, ponto. Então, não há hipótese, não tem chance: pode vir o Papa, a Dilma, o Lula... se eu for reeleito, claro, vou, sim, entregar a bandeira para o próximo prefeito. Eu quero cuidar da minha cidade.
O COI fez críticas sobre os custos dos Jogos Olímpicos no Rio em 2016: que até agora o valor não está definido. Existe um valor de quando o Rio apresentou uma proposta, que era uma estimativa inicial. Por que o Rio não tem ainda uma estimativa final?
Primeira coisa: eu não respondo por todos os custos das Olimpíadas. Respondo pelos custos da prefeitura. O que eu posso dizer é que, no caso da prefeitura, já devem ter 90% dos custos já definidos. A gente sabe quanto custa a TransOeste, a TransCarioca, a TransOlímpica, o Parque olímpico, a revitalização da Zona Portuária, da Praça da Bandeira. Tudo isso que é da prefeitura a gente sabe, então é público. Inclusive, com licitações e obras em andamento. O que não dá para fechar completamente é isso. Estou projetando ainda o estádio de natação, que vai ser recurso federal e a prefeitura vai executar. Estou projetando o negócio de basquete... Então, não posso dar custo de uma coisa que está sendo projetada ainda. A gente tem esse orçamento e, aí, vou fazer uma provocação aqui, irresistível: a gente está muito no prazo para as Olimpíadas. Está muito organizado isso. A Vila Olímpica está saindo, dinheiro privado. Parque Olímpico está saindo, dinheiro privado. As Trans todas andando... Quer dizer, está tudo andando, tudo no prazo.
Mais ou menos. O Velódromo, por exemplo, não se sabe ainda o que vai ser feito. O próprio Parque da Natação ainda vai ser construído, ainda não tem o projeto executivo...
Mas isso não quer dizer que esteja fora do prazo. O que eu estou dizendo que está dentro do prazo: tudo aquilo que demora mais de dois anos para fazer já está sendo executado. “First things first”, usando uma expressão em inglês, “primeiras coisas antes”. Então, prioridades, antes. Aquilo que demorava mais tempo a gente começou antes. O que demora menos tempo a gente vai projetando. Então, estamos no prazo. Não estar definido ainda o Parque de Natação não significa que esteja atrasado o nosso cronograma. A gente deve iniciar isso só em meados do ano que vem, e não significa atraso. Até porque é uma estrutura temporária. Não quero fazer essas coisas com rapidez. Por exemplo, na estrutura temporária, a gente está estudando o que a gente chama de arquitetura nômade. Será que a gente vai construir um equipamento temporário, usar 15 dias e destruir, depois? Será que esse equipamento não pode ser utilizado depois pra virar cinco escolas ou cinco bibliotecas em comunidades? É isso que a gente está fazendo. Te afirmo: está tudo dentro do prazo. Assim, desculpa, modéstia à parte, a gente tá dando um show de bola na Olimpíada, na organização dela.
Agradecemos a sua presença e pedimos que faça suas considerações finais, por favor.
Quero agradecer ao jornal O DIA a oportunidade. No processo eleitoral, a gente tem que debater, na política, as ações e aquilo que a gente tem de propostas. Foi isso que eu busquei fazer ao longo do processo eleitoral. A gente fez muito pela cidade. Não estão todos os problemas resolvidos, mas tenho muito orgulho do que a gente construiu nesses quatro anos. Muito obrigado.
Sabatina com Aline Freire, Aziz Filho, Daniele Maia, Elaine Gaglianone, Fernando Molica e Rozane Monteiro




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